A palavra “Revez” não consta dos dicionários que
consultei, mas encontrei lá palavras semelhantes como revezo, revezar, etc.
Porém, quando em Monchique alguém refere a rua inscrita na placa toponímica que
fotografei, refere-a sempre como rua do Revés Quente, o que me leva a concluir
que “revez” será uma grafia antiga da palavra revés ou uma corruptela da mesma
palavra. Só assim, a história que a seguir conto fará algum sentido.
Rua do Revés Quente
Reza a lenda que nesta rua viveu uma menina de rara beleza, chamada
Maria Branca. Uns cabelos longos de tom
acobreado emolduravam um rosto perfeito em que sobressaiam os olhos escuros,
doces e amendoados. Tudo na menina era perfeição; os lábios, o tom da pele, o
narizinho, as pernas, os seios, todo o corpo. Parecia uma estátua saída do
cinzel de um escultor inspirado.
Não admira que trouxesse pelo beicinho todos os moços da vila e
arredores, mas a verdade é que a todos
eles não dedicava Maria Branca mais do que um fugaz sorriso, ignorando os mimos, elogios e tagatés com que a rodeavam.
Muito religiosa, assistia a quase todas as cerimónias que decorriam na
Igreja, missas, novenas, sermões, etc. Todos os meses se confessava e comungava
frequentemente; dir-se-ia que todo o amor do seu coração ia para Deus e para os
Santos que ornamentavam os diversos altares da matriz. O único defeito que
talvez lhe pudessem apontar, se é que assim se poderia considerar, seria o
facto de ser um pouco janeleira.
Despeitados, alguns dos pretendentes ignorados, em jeito de troça e
maledicência, iam segredando à boca pequena que, se algum dia alguém metesse o
dente naquela fruta, só poderia ser o padre Zézinho.
A mãe, senhora de pêlo na venta e guardiã feroz da castidade da filha,
mantinha a distância segura todo e qualquer varão que lhe assomasse ao portal.
De todos aqueles que ousavam e usavam passar por debaixo das suas janelas,
mendigando a generosidade de um olhar complacente de Branca, havia um que
irritava solenemente a mãe da menina, e esse dava pelo nome de Marreiros Ágoas.
Tratava-se de um peralvilho local, senhor de teres e haveres, morador
num palacete rodeado por uma rica e
frondosa quinta, que era o regalo dos olhos de quem a visitava. Marreiros Ágoas
passava diariamente por aquela rua, montado na sua égua branca, e não se coibia
de olhar langorosamente para a janela de Branca. Se calhava encontrá-la
encostada ao peitoril, esmerava-se no sorriso de um cumprimento acompanhado de suspiroso piropo.
Um dia, Zé do Lameiro, nome porque era conhecido o pai de Branca, tinha
um dia ido até à beira-mar, levando para venda uma carrada de primores das suas
hortas da Perna da Negra, e de lá trouxera, oferta de pescador conhecido, um
alguidar de conquilhas, devidamente cobertas com um farrapo de linhagem
humedecido com água do mar, para as conservar vivas e fresquinhas. Chegado a
casa pediu à esposa para lhe preparar umas papas de milho (a que aqui chamam
xarém), às quais seriam acrescentadas as conquilhas que trouxera da beira-mar.
Era um petisco do apreço de todos lá em
casa.
Estava a mãe de Branca a preparar as saborosas papas, quando escutou uns
passos lentos de cavalo que se aproximavam rua fora. Assomou-se à janela da
cozinha e viu aproximar-se Marreiros Ágoas, que de sorriso nos lábios, passando
o indicador direito pelo fino bigode e fazendo olhinhos galanteadores, se
preparava para saudar e lançar as suas lisonjas a Branca que se encontrava à
janela.
Furiosa, a mãe, num gesto irreflectido, lançou a mão ao tacho das papas
que se encontrava ao lume, e lançou-as para cima do desafortunado Don Juan.
Terá sido este revés sofrido por Marreiros Àgoas a dar nome à rua, pela
qual ainda hoje é conhecida.
Sucede que nesta coisa de lendas, nunca se sabe onde acaba a fantasia e
começa a realidade pelo que tentei saber do destino das personagens. De Maria
Branca e família ninguém me soube dizer, nem da casa onde teria morado. Já quanto a Marreiro Ágoas, fui
mais feliz e descobri uma eventual pista. Disseram-me de uma quinta muito
bonita, onde existiu um senhor muito rico e distinto, no enfiamento da Rua do
Revez Quente. Seria a do nosso galã? Não sei, mas a verdade é que o nome da rua
que conduz ao local onde teria existido em tempos a referida quinta, tomou um
nome que, a acreditar no que me dizem, celebra o garbo e a finura de maneiras
de quem ali viveu; e quem mais, se não Marreiro Ágoas, para personalizar o nome
da rua? Fui, por isso, procurar a placa toponímica que atestasse o que aqui se
descreve, mas só encontrei o sítio. Na parede de um prédio em ruínas ainda se
pode observar o local onde estiveram colocados os azulejos que formavam a referida
placa e que entretanto terão caído ou sido retirados. Socorro-me portanto da
placa de uma pastelaria situada no mesmo local e que foi retirar ao nome da rua
a sua designação comercial.
3 comentários:
Mal empregado Xarém..... ainda por cima de conquilhas :(
Bemparece que a sra tivesse jogado só a caçarola!
Estou banza espanfa com o que sabe o lousanense sobre esta história.Eu,eusinha há 68 anos a vaguiar entre o Bemparece e o Revez Quente não sabia de nada.
Ele sempre há cada revez, ou revés...
E cá por mim não me parece nada bem que quem tão bem parecia tivesse ficado todo empapado. Ironias do destino.
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