terça-feira, 9 de outubro de 2012

O revés do Bemparece


A palavra “Revez” não consta dos dicionários que consultei, mas encontrei lá palavras semelhantes como revezo, revezar, etc. Porém, quando em Monchique alguém refere a rua inscrita na placa toponímica que fotografei, refere-a sempre como rua do Revés Quente, o que me leva a concluir que “revez” será uma grafia antiga da palavra revés ou uma corruptela da mesma palavra. Só assim, a história que a seguir conto fará algum sentido.
Rua do Revés Quente
Reza a lenda que nesta rua viveu uma menina de rara beleza, chamada Maria Branca.  Uns cabelos longos de tom acobreado emolduravam um rosto perfeito em que sobressaiam os olhos escuros, doces e amendoados. Tudo na menina era perfeição; os lábios, o tom da pele, o narizinho, as pernas, os seios, todo o corpo. Parecia uma estátua saída do cinzel de um escultor inspirado.
Não admira que trouxesse pelo beicinho todos os moços da vila e arredores, mas a  verdade é que a todos eles não dedicava Maria Branca mais do que um fugaz sorriso, ignorando os  mimos, elogios e tagatés com que a rodeavam.
Muito religiosa, assistia a quase todas as cerimónias que decorriam na Igreja, missas, novenas, sermões, etc. Todos os meses se confessava e comungava frequentemente; dir-se-ia que todo o amor do seu coração ia para Deus e para os Santos que ornamentavam os diversos altares da matriz. O único defeito que talvez lhe pudessem apontar, se é que assim se poderia considerar, seria o facto de ser um pouco janeleira.
Despeitados, alguns dos pretendentes ignorados, em jeito de troça e maledicência, iam segredando à boca pequena que, se algum dia alguém metesse o dente naquela fruta, só poderia ser o padre Zézinho.
A mãe, senhora de pêlo na venta e guardiã feroz da castidade da filha, mantinha a distância segura todo e qualquer varão que lhe assomasse ao portal. De todos aqueles que ousavam e usavam passar por debaixo das suas janelas, mendigando a generosidade de um olhar complacente de Branca, havia um que irritava solenemente a mãe da menina, e esse dava pelo nome de  Marreiros Ágoas.
Tratava-se de um peralvilho local, senhor de teres e haveres, morador num palacete  rodeado por uma rica e frondosa quinta, que era o regalo dos olhos de quem a visitava. Marreiros Ágoas passava diariamente por aquela rua, montado na sua égua branca, e não se coibia de olhar langorosamente para a janela de Branca. Se calhava encontrá-la encostada ao peitoril, esmerava-se no sorriso de um cumprimento  acompanhado de suspiroso piropo. 
Um dia, Zé do Lameiro, nome porque era conhecido o pai de Branca, tinha um dia ido até à beira-mar, levando para venda uma carrada de primores das suas hortas da Perna da Negra, e de lá trouxera, oferta de pescador conhecido, um alguidar de conquilhas, devidamente cobertas com um farrapo de linhagem humedecido com água do mar, para as conservar vivas e fresquinhas. Chegado a casa pediu à esposa para lhe preparar umas papas de milho (a que aqui chamam xarém), às quais seriam acrescentadas as conquilhas que trouxera da beira-mar. Era um petisco do apreço de  todos lá em casa.
Estava a mãe de Branca a preparar as saborosas papas, quando escutou uns passos lentos de cavalo que se aproximavam rua fora. Assomou-se à janela da cozinha e viu aproximar-se Marreiros Ágoas, que de sorriso nos lábios, passando o indicador direito pelo fino bigode e fazendo olhinhos galanteadores, se preparava para saudar e lançar as suas lisonjas a Branca que se encontrava à janela.
Furiosa, a mãe, num gesto irreflectido, lançou a mão ao tacho das papas que se encontrava ao lume, e lançou-as para cima do desafortunado Don Juan.
Terá sido este revés sofrido por Marreiros Àgoas a dar nome à rua, pela qual ainda hoje é conhecida.

Sucede que nesta coisa de lendas, nunca se sabe onde acaba a fantasia e começa a realidade pelo que tentei saber do destino das personagens. De Maria Branca e família ninguém me soube dizer,  nem da casa onde teria morado. Já quanto a Marreiro Ágoas, fui mais feliz e descobri uma eventual pista. Disseram-me de uma quinta muito bonita, onde existiu um senhor muito rico e distinto, no enfiamento da Rua do Revez Quente. Seria a do nosso galã? Não sei, mas a verdade é que o nome da rua que conduz ao local onde teria existido em tempos a referida quinta, tomou um nome que, a acreditar no que me dizem, celebra o garbo e a finura de maneiras de quem ali viveu; e quem mais, se não Marreiro Ágoas, para personalizar o nome da rua? Fui, por isso, procurar a placa toponímica que atestasse o que aqui se descreve, mas só encontrei o sítio. Na parede de um prédio em ruínas ainda se pode observar o local onde estiveram colocados os azulejos que formavam a referida placa e que entretanto terão caído ou sido retirados. Socorro-me portanto da placa de uma pastelaria situada no mesmo local e que foi retirar ao nome da rua a sua designação comercial.  

3 comentários:

Maluis disse...

Mal empregado Xarém..... ainda por cima de conquilhas :(
Bemparece que a sra tivesse jogado só a caçarola!

lagartinha disse...

Estou banza espanfa com o que sabe o lousanense sobre esta história.Eu,eusinha há 68 anos a vaguiar entre o Bemparece e o Revez Quente não sabia de nada.

Zi disse...

Ele sempre há cada revez, ou revés...
E cá por mim não me parece nada bem que quem tão bem parecia tivesse ficado todo empapado. Ironias do destino.