O ministro Miguel Macedo
acordou com formigas na cama e resolveu botar discurso para o pessoal,
inspirado na história de crianças “A cigarra e a formiga”. Já se sabe que neste
país, quando se inspira um português inspiram-se logo dois ou três, e foi o que
me aconteceu. Talvez porque durante as
férias, em Monchique, também tive uma ou duas noites ministeriaveis:
acordei com formigas na cama.
Num desses dias algarvios desci
para tomar o pequeno almoço e, enquanto preparava as torradas e o café com leite, reparei numa pequena formiga
que se afadigava sobre a banca da cozinha. Num gesto instintivo avancei sobre
ela o indicador e esborrachei-a, sem dó nem piedade. Ainda estava fresco na
memória o passeio que as suas irmãs tinha dado sobre o meu sono numa daquelas
noites, para já não falar do pedaço de torta que numa outra manhã apareceu a
negrejar de formiguedo, qual comprimido contra a diabetes.
Por esses mesmo dias, a
Margarida ao sair para o trabalho, também foi encontrar os três quartos de
pizza que tinham sobrado do jantar e estariam reservados para o seu almoço, no
mesmo estado de negritude e agitação. Por isso, não foi de modas; agarrou na
caixa da pizza tal como estava, levou-a para a rua, aspergiu-a delicadamente (
leia-se, furiosamente) com Dum-Dum e pregou
com tudo no caixote do lixo.
Visto pelo nosso lado até se
compreende. Mas agora tentem ver pelo lado da formiga; o meu indicador terá sido para ela o que
representa para nós um meteorito ou um combóio na nossa direcção; os borrifos
da Margarida uma espécie de ataque às Torres Gémeas, quiçá o tsunami que
assolou a Ásia há algum tempo.
Afinal, as formigas que a
Margarida arrasou, só estavam a cumprir a história: amealhar para o Inverno.
Quanto àquela que eu trucidei, tinha uma missão diferente: era uma patrulha avançada que andava em busca de
mantimentos para informar as formigas operárias que se encarregariam do seu
transporte para o formigueiro, por isso mais digna de dó.
Já depois de a ter matado, pensei em como seria bom ter
uma lupa poderosa e um pincel muito fino de modo a escrever com tinta branca um
numero nas costas de umas quantas de modo a poder controlar as suas idas e
vindas do formigueiro. É que me lembrei dos nosso antigos e corajosos
navegadores, que partiram à descoberta de novos mundos, até então
desconhecidos. Quando chegavam a uma nova terra onde pudessem acostar, também
eles escolheriam um ou outro com mais forças e mais coragem, para ir enfrentar
o desconhecido em busca de água ou frutos. Também eles era pequenas
formiguinhas em busca de alimento e muitos terão encontrado a morte
esborrachados pelo indicador da Vida.
A cigarra não é para aqui chamada; gosto de a ouvir porque
é sinal de verão e eu gosto do verão, mas agora já começa a ficar fresco e ela foi cantar para outro lado.
Obs. A foto fui «roubá-la» ao Eduardo Carriço, que é meu
primo por afinidade, afilhado de casamento, um grande fotógrafo e um grande
amigo, obviamente. Julgo que ele não se vai zangar.

3 comentários:
Gosto mesmo do que escreves!!
só dessa cabeça para se inspirar na formiga da banca da cozinha :)
Acho mesmo que este deveria ser o titulo do post :"A formiga da banca da cozinha - reflexão"
Obrigada pelo bom momento
gostei ,já tentei comentar e não consegui ,agora que posso comentar já me esqueci do que ia escrever :)
O conto infantil adapa-se perfeitamente ao lousanense,porque este, uma parte da vida levou a formigar,formigar e presentemente leva a cigarrar,cigarrar.
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