quarta-feira, 26 de setembro de 2012



O ministro Miguel Macedo acordou com formigas na cama e resolveu botar discurso para o pessoal, inspirado na história de crianças “A cigarra e a formiga”. Já se sabe que neste país, quando se inspira um português inspiram-se logo dois ou três, e foi o que me aconteceu. Talvez porque durante as  férias, em Monchique, também tive uma ou duas noites ministeriaveis: acordei com formigas na cama.

Num desses dias algarvios desci para tomar o pequeno almoço e, enquanto preparava as torradas e o  café com leite, reparei numa pequena formiga que se afadigava sobre a banca da cozinha. Num gesto instintivo avancei sobre ela o indicador e esborrachei-a, sem dó nem piedade. Ainda estava fresco na memória o passeio que as suas irmãs tinha dado sobre o meu sono numa daquelas noites, para já não falar do pedaço de torta que numa outra manhã apareceu a negrejar de formiguedo, qual comprimido contra a diabetes.

Por esses mesmo dias, a Margarida ao sair para o trabalho, também foi encontrar os três quartos de pizza que tinham sobrado do jantar e estariam reservados para o seu almoço, no mesmo estado de negritude e agitação. Por isso, não foi de modas; agarrou na caixa da pizza tal como estava, levou-a para a rua, aspergiu-a delicadamente ( leia-se, furiosamente) com Dum-Dum  e pregou com tudo no caixote do lixo.

Visto pelo nosso lado até se compreende. Mas agora tentem ver pelo lado da formiga; o  meu indicador terá sido para ela o que representa para nós um meteorito ou um combóio na nossa direcção; os borrifos da Margarida uma espécie de ataque às Torres Gémeas, quiçá o tsunami que assolou a Ásia há algum tempo.

Afinal, as formigas que a Margarida arrasou, só estavam a cumprir a história: amealhar para o Inverno. Quanto àquela que eu trucidei, tinha uma missão  diferente: era uma patrulha avançada que andava em busca de mantimentos para informar as formigas operárias que se encarregariam do seu transporte para o formigueiro, por isso mais digna de dó.

Já depois de a ter matado, pensei em como seria bom ter uma lupa poderosa e um pincel muito fino de modo a escrever com tinta branca um numero nas costas de umas quantas de modo a poder controlar as suas idas e vindas do formigueiro. É que me lembrei dos nosso antigos e corajosos navegadores, que partiram à descoberta de novos mundos, até então desconhecidos. Quando chegavam a uma nova terra onde pudessem acostar, também eles escolheriam um ou outro com mais forças e mais coragem, para ir enfrentar o desconhecido em busca de água ou frutos. Também eles era pequenas formiguinhas em busca de alimento e muitos terão encontrado a morte esborrachados pelo indicador da Vida.

A cigarra não é para aqui chamada; gosto de a ouvir porque é sinal de verão e eu gosto do verão, mas agora já começa a ficar fresco e ela foi cantar para outro lado.

Obs. A foto fui «roubá-la» ao Eduardo Carriço, que é meu primo por afinidade, afilhado de casamento, um grande fotógrafo e um grande amigo, obviamente. Julgo que ele não se vai zangar.

3 comentários:

Maluis disse...

Gosto mesmo do que escreves!!
só dessa cabeça para se inspirar na formiga da banca da cozinha :)
Acho mesmo que este deveria ser o titulo do post :"A formiga da banca da cozinha - reflexão"

Obrigada pelo bom momento

trout disse...

gostei ,já tentei comentar e não consegui ,agora que posso comentar já me esqueci do que ia escrever :)

lagartinha disse...

O conto infantil adapa-se perfeitamente ao lousanense,porque este, uma parte da vida levou a formigar,formigar e presentemente leva a cigarrar,cigarrar.