Estávamos nos princípios da década de 60 e as festas de verão na Lousã decorriam bem animadas. Havia bailaricos no Mercado, tinha-se realizado a Marcha dos Antónios, seguir-se-ia a Marcha dos Joões e dessa vez até os “Pedros por pirraça / iriam bailar na Praça / com foguetes e balões”.De barriguinha encostada ao balcão de uma das tascas improvisadas no espaço do Mercado, estava eu, o Vasco, o Zé Luís Lobo, o Zé Quaresma “Gato” e não me lembro se mais alguém. Olhávamos e comentávamos, talvez com uma certa e inveja, a animação dos Antónios que, terminado o seu desfile, ali ao lado confraternizavam na tradicional e animada bacalhoada com que encerrava habitualmente a sua Marcha.
Estando-nos interdito o sentar àquelas mesas, dada a nossa condição de usufrutuários de outros nomes que não o do Santo padroeiro daquela gente, deu-me a mim para magicar numa grande Marcha que envolvesse todos os deserdados da onomástica dos Santos Populares. Do cérebro à palavra o pensamento fluiu mais rápido e curto do que um salto de pardal; pensei, expus a ideia, e por ali me fiquei. Aqueles que me acompanhavam, com espírito mais prático e outras possibilidades, sem se manifestarem muito na altura, agarraram a sugestão, estudaram-na e resolveram pô-la em marcha.
No ano seguinte desfilava a enorme Marcha dos Outros. O poeta António Victor fez a letra, maestro da Filarmónica sr. João Mateus Poiares fez a música, e lá saímos a cantar
Por não ser Tónio ou João,
Tinha uma certa laracha,
Que não pegasse um balão
E não viesse na marcha.
Os Pedros com grande alarde
Vieram com belos modos.
Viva esta grande verdade:
Há moralidade, ou marchamos todos.
Vá Joaquim
Vamos José
Ó Serafim
E Barnabé.
Romeu, Saúl Refrão
Venha quem possa
Todo taful,
Que a marcha é nossa.
Foi uma marcha enorme e muito divertida. Velhos e novos desfilaram com o seu arquinho e balão e como os marchantes eram muitos, a tocata foi colocada em cima de um camião de caixa aberta, que tinha instalados altifalantes orientados para o principio e fim do desfile.
Eu, para ser diferente, levava um chapéu de chuva aberto com um balão pendurado na ponta de cada vareta. Na copa do chapéu tinha pespegado uma foto de uma boazona recortada de uma revista (não... não era do Playboy!). Havia uma fotografia da minha triste figura, mas como foi
feita com uma máquina Polaroid, a imagem desvaneceu-se com o rolar dos anos. Ali ia, mais empertigado e orgulhoso que D.Paio de Farroncóbias quando saía com os seus pagens em cavalgadas de desbaste ao sarraceno.
No final da marcha, em lugar da tradicional bacalhoada, houve uma caldeirada primorosamente confeccionada por dois pescadores idos expressamente da Figueira da Foz acompanhados do fresquíssimo peixe.
E assim nos divertíamos na Lousã, naquele tempo.
2 comentários:
A Marcha era dos outros mas a letra e música dum António e dum João!
Pois é, ironias do destino... mas também prova da verdadeira fraternide existente entre Uns e Outros!
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