
Já aqui se disse da popularidade, do apreço e da veneração que o Santo António goza, por parte dos portugueses. Porém, à época das marchas aqui descritas, outros Antónios havia que concitavam atenção generalizada da população portuguesa, embora sem atingir o grau de aceitação que tinha aquele doutor da Igreja. No topo da lista surgia um que acumulava a popularidade, o apreço e a veneração de alguns, com o ódio, o desprezo e a raiva de muitos outros: António de Oliveira Salazar. Circulava na altura uma quadra popular que punha em destaque a dicotomia dos dois Antónios e que rezava assim:
De dois Antónios famosos
Nossa Lisboa disfruta;
Um Santo, filho de Deus,
O outro, um filho da p…
Embrulhado na recordação difusa que conservo da marcha dos Antónios, surge ainda um episódio que na altura presenciei e ainda hoje permanece vivo na minha memória.
De dois Antónios famosos
Nossa Lisboa disfruta;
Um Santo, filho de Deus,
O outro, um filho da p…
Embrulhado na recordação difusa que conservo da marcha dos Antónios, surge ainda um episódio que na altura presenciei e ainda hoje permanece vivo na minha memória.
Entre os vários marchantes que desfilaram, estava o sr. António Claro, fiscal do Desemprego para a área da Lousã, cuja missão, ao contrário daquilo que se possa agora imaginar, não consistia em verificar quem estava a receber o subsídio e a trabalhar noutro local simultaneamente. Naquele tempo não havia cá essas modernices dos subsídios; quem estava desempregado que procurasse emprego ou se desenrascasse como pudesse.
O fiscal do Desemprego servia para fiscalizar as empresas, verificando se as mesmas faziam os respectivos descontos para o Estado, assim como o sr. Duarte, fiscal das farinhas, andava em cima dos moinhos e do manifesto e comércio de cereais, não fosse alguém atrasar-se nas taxas.
Havia ainda outros ficais, como o dos isqueiros, porque um Estado policial e autoritário como era o nosso, não prescindia destes humildes serviçais. Desconfio que a maioria dessa gente arredondava o magro ordenado que recebia ao fim do mês, com a subvenção que lhes era paga pelas informações que ia passando à PIDE, mas se calhar sou eu que sou desconfiado.
Havia ainda outros ficais, como o dos isqueiros, porque um Estado policial e autoritário como era o nosso, não prescindia destes humildes serviçais. Desconfio que a maioria dessa gente arredondava o magro ordenado que recebia ao fim do mês, com a subvenção que lhes era paga pelas informações que ia passando à PIDE, mas se calhar sou eu que sou desconfiado.
O sr. Claro era um homem alto e magro, muito elegante, sempre de fato e gravata e com um chapéu de feltro na cabeça, descaído ligeiramente para a direita. De fala mansa, andar suave e leve sorriso na face, a sua compostura não se alterava quando em convívio ia despachando copos de três com a mesma diligência de quem avia um recado.
Por sua vez, o sr. Duarte, também um grande elemento da «Irmandade dos Copos», era de feitio mais extrovertido e bonacheirão. Vestia igualmente bem e usava sempre um lencinho e um rutilante emblema do Benfica na lapela do casaco. Assentava regularmente banca na tasca do Maneco, de volta de um ou outro petisco generosamente regado. Uma ou duas vezes por ano dava tréguas ao fígado, enquanto lavava a «vasilha» com uma purga com 30 grs. de sulfato de sódio.
O sr. Claro tinha um filho, o Júlio, que, à semelhança do pai, andava sempre impecavelmente vestido e com ares de engatatão. Um «pipi», como então se chamava aos playboys de agora.
Não sendo alto, tinha porém um certo ar de indivíduo do norte da Europa, na sua pele muito branca, cabelo vagamente alourado ou arruivado, nariz proeminente e pose.
Não sendo alto, tinha porém um certo ar de indivíduo do norte da Europa, na sua pele muito branca, cabelo vagamente alourado ou arruivado, nariz proeminente e pose.
Naquele dia de Junho, o Julinho vestia impecavelmente um fato cinzento claro, camisa branca, e a dar a nota de cor e de realce à figura, uma espampanante gravata amarela a saltar do rigoroso nó à Windsor.
A marcha dos Antónios estava a começar a formar-se à entrada do Parque do Regueiro, junto à Cantina Escolar, e várias pessoas, entre as quais eu me incluía, observavam à parte. O Julinho, talvez porque o pai fazia parte dos marchantes, infiltrou-se no meio da organização da marcha e, ao que parece, começou a dar palpites sobre a organização da mesma. Quem não gostou da intromissão foi o António Martins, indivíduo façanhudo da «ferrugem» da CEB, que morava na Lagartixa, em frente da casa que foi do pintor Mestre Carlos Reis. Palavra puxa palavra e o Martins que era mais dado a gestos do que a loquacidades, mandou um murro ao nariz do Julinho.
Passaram algumas décadas, mas parece-me que ainda o estou a ver de cabeça curvada, tentando manter a pose, e olhando desolado para a nódoa vermelha de sangue que ia alastrando pela berrante gravata amarela.
Se o Julinho tem tomado mais atenção à letra da marcha, teria verificado que ali se diz: “São levados do Demónio/As almas são todas moças…” Pela minha parte, se não me tenho deixado entusiasmar pela descrição, não estaria aqui a subverter a ideia inicial: escrever sobre a Marcha dos Outros. Fica para a próxima!
Se o Julinho tem tomado mais atenção à letra da marcha, teria verificado que ali se diz: “São levados do Demónio/As almas são todas moças…” Pela minha parte, se não me tenho deixado entusiasmar pela descrição, não estaria aqui a subverter a ideia inicial: escrever sobre a Marcha dos Outros. Fica para a próxima!
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