quinta-feira, 10 de junho de 2010

Fala o galo da torre

Às vezes as ideias são como as palavras, que, por sua vez, são como as cerejas; vêm umas atrás das outras. Um poema com mais de 70 anos deu origem a algumas coisas que aqui escrevi, por causa das recordações que me trouxe e da ligação que fiz entre elas. Foi por ele que vos falei das prisões da minha vida, mostrei o impresso de um dos meus BI e discorri sobre o modo como era obtido, lembrei a família Mariano.
É tempo de mudar de tema e arrumar o assunto dando-vos a conhecer o responsável por estas baboseiras que aqui venho escarrapachando, até porque estão aí à porta os Santos Populares e a sardinha assada a pingar no pão.




A imagem que aqui apresento não será estranha a quem, ainda hoje, viaje pelas vilas e aldeias do nosso Portugal. Velhas igrejas e capelinhas vão resistindo à moda que nos impinge cruzes luminosas para o topo dos seus campanários, e que os despe de sinos e sinetas para nos infernizar com o badalar electrónico cuspido pelas campânulas colocadas em seu lugar.

Para mim, campanário que se preze tem de nos fazer ouvir a sonoridade dos seu sinos e ostentar o seu cata-vento encimado por altivo galaroz:
“ Ouvira-se o sino grande do Carregal, o Barradas, que é sinal do céu a limpar mais dia menos dia; na flecha do campanário o galo zarelhava, teimando em não aproar a crista a nascente…” Aquilino Ribeiro, Terras do Demo.

A torre da igreja da Lousã também teve, e suponho que ainda tem, cata-vento e galo situados bem lá no alto, sinos a sério e relógio. Porém, devido à altura a que estão colocados, estão muito expostos às intempéries e é difícil a sua manutenção. Os sinos resistem bem, mas por causa disso o relógio avariou e esteve muito tempo parado, e o galo, a dada altura, perdeu a cabeça.

Ora um galo de cabeça perdida é um caso sério, por isso o poeta Mário Mariano, de quem já aqui falei, soltou poema de circunstância. Antes de o dar a conhecer quero primeiro esclarecer-vos sobre algumas das pessoas ali citadas:

Armando da Travessa era o meu pai, responsável involuntário deste blog; César da Farmácia era um nosso parente afastado conforme consta do n.º 10 do § 44, pag.88 do "Patas de Macaco"; César Barriguinha era irmão da tia Linita, mãe da Miluí. Quanto ao Antoninho Alegria, conheci mal, mas a julgar pelas linhas que lhe são dedicadas era a alegria em pessoa. Vivia em Lisboa, ia de férias para a Lousã e como tinha uma filha boazona (ou duas?), também trazia a alegria à rapaziada do tempo.

Fala o galo da torre

… abre em flores
o meu estro panteísta!
Vão falar os cavadores
e os galos de longa crista!

“Descabeçado… sem jeito…
depenado… solitário…
curtindo queixa de peito,
cumprindo triste fadário;
carpindo mágoas e dores,
lembrando tempos passados,
tão alegres descuidados,
entre folganças d´amores:
assim eu, - pobre de mim -,
aqui estou neste poleiro,
almejando o triste fim,
o meu penar derradeiro.
Pode-se lá conceber,
q´eu, um galo de talento,
aqui esteja a apodrecer
servindo de cata-vento?!...
eu, um rei da capoeira,
elegante… de rabona…
que fiz andar numa fona,
tanta galinha brejeira?!...
Eu, que fugi aos encartes
de findar num jantar d´anos;
eu, que por sábias artes,
me furtei a ruins planos?!...
Ser apanhado p´ra isto
só p´ra servir de risota…
Oh! Caso horrendo… imprevisto…
acabar entre chacota!...
Não poder trinar a voz,
arrastar a asa terna,
espichar a leda perna;
e lutar em briga atroz
com um galaroz bisonho!...
Oh! Caso negro, nefando,
que curtirei soluçando,
comigo… parece um sonho!...
Não poder ver a careca
do Armando da Travessa!...
Não poder tocar rabeca
na barriga de tal peça!...
Não poder ouvir contente,
de tanta voz, a falácia;
não ouvir a voz dolente,
do bom César da Farmácia!...
Não poder ver a plástica
maciça que s´adivinha
naquela bola bombástica,
qu´é o César Barriguinha!...
Não ouvir as gargalhadas
vibrantes… sem melodia…
que solta, tão bimbalhadas,
o Antoninho Alegria!
Ai! Que tristeza, que mágoa,
chorai comigo… chorai!...
meus olhos não deitam água,
pois a cabeça… lá vai!...
por isso, em testamento,
aqui vos deixo, ao findar;
o rabo… rabo portento…
sempre o pior de esfolar!..."


Mário Mariano

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