E de súbito eis que, no desfolhar contínuo do calendário, nos encontramos a 12 de Junho, e começa a folia com as festas dos chamados Santos Populares. Hoje é noite de Santo António, aquele que é, porventura, o santo mais adorado pelos portugueses.De facto todos gostamos de o dissociar de jejuns e penitências, imputando-lhe virtudes mais pícaras e brejeiras ao jeito do nosso feitio manhoso e malandreco. Por isso, a devoção que alguma população lhe dedica, tem aspectos de alegria e irreverência que não é dedicada a nenhum outro. É um misto de religiosidade e paganismo que, por vezes, chegou ao extremo ser chocarreira e pouco católica, como na romaria ao Santo António da Neve, na serra da Lousã.
Os italianos, a pretexto de o nosso Santo António ter ido para Pádua, bem quiseram apropriar-se da sua figura baptizando-o de Santo António de Pádua, mas veneram-no de maneira tão desastrada, que, se ele cá voltasse, e a ser como os portugueses o imaginam, depressa abandonaria aquela cidade italiana.
Numa viagem que fiz por Itália, fui visitar em Pádua a igreja onde está depositado o seu túmulo, e fiquei admirado com o rigor e a densidade religiosa que é imposta a quem ali se desloca. Havia como que um ambiente de Inquisição, que não observei noutros templos daquele país, incluindo o Vaticano. Ali é considerado como um grande «taumaturgo», porque milagreiro é para os portugas. Aonde ia o nosso Santo António de Lisboa, alegre, casamenteiro, que partia e consertava as bilhas das moças que iam à fonte? Como puderam fazer-lhe aquilo?…
Na Lousã também festejávamos o Santo António, mais com bailaricos e marchas, que missas e procissões. Uma dessas marchas era a dos Antónios, onde de arquinho e balão em punho desfilavam os homens e rapazes com esse nome, cantando a marchinha composta por António Vitor e João Malta.
A marcha dava volta à vila, saindo do Parque do Regueiro, passando pela Travessa, descendo pela rua Viscondessa do Espinhal e Rua do Comércio até à Estação. Ali atravessava a linha e ia até uma capelinha de Santo António situada nas Poças, um lugar à saída da Lousã. Voltava à Estação e subindo as Avenidas do Brasil e Coelho da Gama ia terminar na Praça Cândido dos Reis, após o que os marchantes iam comemorar numa alegre e bem regada bacalhoada.
E o que cantavam eles? Isto:
Santo António sem favor
És o rei das maravilhas
A curar penas de amor
E até a quebrar as bilhas
Lá na corte do Senhor
Na corte celestial
Tu és o embaixador
Do povo de Portugal
É o dia dos Antónios
A seguir são os Joões
Só os Pedros por pirraça
Não vêm bailar na Praça
Com foguetes e balões.
São levados do demónio Refrão
As almas são todas moças
A cantar pelo caminho
Vão levar Santo Antoninho
Santo Antoninho das Poças
Soubesse eu tocar qualquer coisa e isto daria direito a vídeo com cantoria e tudo. Assim fiquem com a letra e a promessa de outro escrito sobre o tema. Que este hoje, já vai longo.
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