domingo, 6 de junho de 2010

A saga dos B.I.


À falta de melhor, aí vai mais um “Registo para Memória Futura”, sugerido pelas histórias do BI, que já aqui foram apresentadas.

Arranco mais uma página gasta e amarelecida do meu livro de recordações, para vos trazer outras memórias ligadas ao ultrapassado B.I., documento bem diferente daquele que agora vai sendo substituído pelo Cartão do Cidadão. Era então uma folhinha dobrada em três partes, com fotografia, impressão digital do indicador e assinatura, montada numa capa cartonada.

Como já aqui referi, era o sr. Mário Mariano quem, na Lousã, tratava do nosso B.I. O sr. Mário Mariano, tal como o recordo, era um homem de estatura meã, ligeiramente curvado para a frente, já um pouco grisalho e com um cigarro sempre pendente dos lábios. Acumulava as funções de funcionário público com as de poeta nas horas vagas, tendo publicado alguns livros. Era casado com a senhora Dª. Iracema Mariano, uma senhora com ar distinto e uma bela cabeleira branca, pai do Alcino Mariano, de quem falarei mais adiante, e de uma rapariga de quem já não recordo o nome.

O curioso é que, aquilo que me salta imediatamente à memória quando recordo aquela figura, são as unhas. Perguntais todos vós: o que é que teriam as unhas do sr. Mário Mariano de tão estranho, para ainda serem recordadas passados mais de 60 anos? Pois eu explico: eram umas unhas muito largas e aduncas, como eu até então nunca tinha visto outras, amarelecidas pelo fumo do cigarro. Tímido como eu era, ver aqueles dedos grossos equipados com tais unhas, saltarem sobre o papel e do papel para o tinteiro, traçando os sinais da minha cidadania, foi uma imagem que me ficou colada na memória até hoje.

O filho, Alcino Mariano, para além de futebolista do Clube Desportivo Lousanense e xadrezista com algum mérito, segundo julgo saber, do Clube de Xadrez da Lousã, era também poeta e prosador nas horas vagas. No futebol, se a memória não me atraiçoa, jogava a médio ou interior esquerdo, e para os padrões da época e da região, podia considerar-se como um bom atleta.

Como prosador publicou um ou dois pequenos livrinhos de contos, de estilo neo-realista. Li-os há já muitos anos e na altura não me convenceram. Talvez se os tornasse a ler hoje mudasse de opinião. Não sei! Publicou também, pelo menos, um livro de poesia, à base de sonetos e quadras, que igualmente me não entusiasmaram. Tal como com a prosa, uma leitura mais actualizada poderia fazer-me mudar de opinião.

Recordo ainda o Alcino como meu colega na Companhia do Papel do Prado. Escrevia com uma letra miúda e certinha na sua Parker Victória e era um bom dactilografo. Sempre revoltado com a sua situação profissional e com a vida política do país, vivia a sonhar com a revolução. Costumava colocar duas esferográficas ou lápis sobre o mata-borrão tipo tanque, à laia de canhões e fazendo avançar o mata-borrão sobre a minha secretária, segredava-me: “Ai Baptista, quando isto mudar… quando vier a revolução…”

Acabou por sair da Prado e foi trabalhar para a Segurança Social, em Aveiro, depois dos pais morrerem. Quando com ele privei já era um indivíduo amargo, complexado, um pouco zangado com a vida, e julgo que continuou assim até ao fim dos seus dias. Para tal, terá contribuído, ao que constou, uma desilusão amorosa que lhe terá causado uma nega dado por uma rapariga, que também conheci, e por quem ele se apaixonou.

Essa amargura com a vida transmitiu-a ele à sua prosa e à sua poesia, talvez a razão para não lhes ter achado grande piada na altura em que as li. Já a poesia do pai tinha uma aura mais romântica e até sarcástica, como poderão ver numa coisa que aqui tenciono publicar.

Não consta que no 25 de Abril, o “Cininho” (como, por brincadeira, às vezes lhe chamávamos), tenha saltado para cima de qualquer tanque e metralhado os fascistas, a exemplo dos ensaios que fazia nas pacíficas secretárias da Prado. Lembrando esses “exercícios bélico-amanuenses” o convívio e as ideias que trocámos, soube-me bem recordar aqui a amizade e a figura do Alcino Mariano.

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