segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Fiat Lux

Génesis 1: E disse Deus: Faça-se Luz; e houve luz.

Há porém vários tipos de luz e aquela que Deus nos terá oferecido foi só, e não foi pouco, a luz do Sol; potente, clara, quente e acariciadora  umas vezes, inclemente outras, mas indispensável à vida. Não há outra que a substitua.

 Quando a rotação da Terra faz o Sol desaparecer no horizonte, fica a humanidade órfã da luminosidade e do calor do astro-rei, pelo que desde o princípio dos tempos tem desenvolvido esforços para mitigar a sua ausência. Assim nasceu a iluminação a azeite, petróleo, gás acetileno ou outro, e por fim, electricidade.

Em 1917, formou-se na Lousã a sociedade Padilha & Rebelo, Lda. que veio a instalar nas ribeiras de Cerdeira, Candal e São João uma central eléctrica a fio de água. Esta Central  iniciou a sua exploração em Dezembro de 1927, esteve em exploração até finais dos anos 70, ficando depois numa situação de abandono até 1987. Por decisão da EDP foi iniciado o seu processo de reabilitação e ainda hoje se mantém em actividade.

Mais tarde, em Dezembro de 1934, a partir da referida sociedade, foi constituída a Companhia Eléctrica das Beiras (CEB), empresa que teve a sua sede durante vários anos na Lousã, e que a partir da nacionalização do sector eléctrico em 1975 foi integrada na Electricidade de Portugal – EDP.

A CEB foi uma empresa muito importante para a Regiâo Centro e devem-se a ela os mais exaustivos estudos sobre o aproveitamento hidroeléctrico do Mondego. Mandou construir a Barragem de Santa Luzia, no rio Unhais, afluente do Zêzere, que entrou ao serviço em Setembro de 1943 e foi até à inauguração da Barragem de Castelo do Bode, em 1951, o maior aproveitamento hidroeléctrico do país. 

Mas, voltando à Padilha & Rebelo, Lda., cumpre esclarecer que a empresa não começou logo pela exploração da energia eléctrica. Dedicou-se inicialmente ao comércio de vinhos e posteriormente à indústria de moagem e serração. Foi a partir desta unidade fabril,que possuía uma pequena central, que nasceu a «luz» de dar luz à Lousã . Assim, em 14 de Fevereiro de 1924, as ruas da Lousã apareceram iluminadas pela primeira vez a energia eléctrica.

A exploração do fornecimento de energia eléctrica pertencia à Padilha & Rebelo, Lda. que, com mais ou menos cortes de energia, lá ia iluminado a população da vila. È de crer que inicialmente as condições técnicas não seriam das mais evoluídas, pelo que, volta e meia, a população ficaria às escuras. Quem controlava a parte comercial deveria ser o sr. Rebelo, figura que ainda conheci, a avaliar pelo seguinte comentário do jovem jornalista Augusto Miguel, inserido em Agosto de 1931 no semanário Alma Nova que se publicava na Lousã:

(…) A pouca vergonha que o sr. Rebelo nos dá, é sempre feita às escuras. Apaga a luz e só depois é que aqui e além se ouve murmurar por entre trevas macabras deste cemitério de consumidores – Pouca vergonha, pouca vergonha -. A única pouca vergonha que o sr.Rebelo faz às claras, à clara luz do dia, é passar os recibos para pagamento de uma coisa que não se viu.(…)

Nota – Este escrito foi inspirado e baseado em notas retiradas do livro “ A República na Lousã” da autoria do meu amigo José Ricardo Almeida. Também retirei alguns elementos de uma comunicação da autoria de João M.J. Figueira, enviada ao XXII Encontro da Associação Portuguesa de História Económica e Social – Aveiro, 15 e 16 de Novembro de 2002.

1 comentário:

lagartinha disse...

Que saudades que eu já tinha da minha alegre terrinha que em alguns casos tão mal tratada está, no fim não percas a esperança que de um dia para outro tudo renascerá.