
De botas cardadas
Estaciono o carro junto a um complexo escolar de Queluz e fico a ouvir a “Caderneta de Cromos “ na Rádio Comercial. Defronte pára uma adolescente loura, muito bonita, que tinha ido levar o irmão à escola. Acende um cigarro, consulta o telemóvel que traz na mão e segue o seu caminho. Em sentido contrário passa um grupo de jovens de polegar ginasticado, falando e rindo alto, cada um com o seu telemóvel. Agora é uma senhora forte, de estatura meã, vestindo uma bata aos quadrados castanhas, acompanhando um grupo de crianças que também se dirige à escola.
Surge um miúdo com os seus 11-12 anos, puxando uma mochila com rodas e transportando debaixo do braço esquerdo uma bonita bola de futebol, de um laranja forte, quase vermelho. Vai feliz e confiante porque ainda não sabe, que tal como os que o antecederam nestas modestas linhas, faz parte da geração “à rasca”.
Sinto-me transportado à minha meninice e começo a fazer comparações. Desde logo com a bola. Naquele tempo jogávamos à bola sim, mas com trapeiras feitas com as meias velhas que íamos surripiando às mães. Quando faltava a matéria prima para fazer as ditas, fazia-se uma bola com papéis velhos devidamente atada com cordel. Quase todos jogavam descalços, porque uns ténis ou botas de futebol nem miragem conseguiam ser. Quase todos os meus colegas iam descalços para a escola pelo que os poucos que jogavam calçadas faziam-no com botas cardadas ou de sola de pneu.
Na altura, Portugal dava cartas no hóquei em patins, e assim, por alturas do torneio de Montreux ou do Campeonato Mundial, estalava a febre do hóquei em todos nós. Íamos à serra cortar ramos de acácia para fazer os sticks, com cartão canelada faziam-se as caneleiras do guarda-redes e um marceneiro paciente torneava-nos um a bola de madeira de oliveira. Duas pedras faziam de baliza e aí estávamos nós a jogar hóquei sem patins. Por vezes a bola partia-se e, se não havia outra, terminava o jogo.
Uma vez a mãe do Guilherme foi cozer a broa, deparou-se com os sticks escondidos no meio da lenha, e não foi de modas: utilizou-os para aquecer o forno. Tivemos de voltar à serra.
Na escola, consoante a época, jogava-se ao pião, à barra, ao berlinde, ao botão e ao «mur e mur». No pião pontificavam os filhos dos marceneiros com piões bem torneados de «oliveirinha seca» e com ferrões assassinos; no berlinde davam cartas os filhos dos serralheiros e mecânicos, que apareciam com esferas de rolamentos. Havia quem aparecesse com as bolas de vidro dos pirolitos e outros faziam bolas a partir de pedras de xisto, pacientemente arredondadas numa parede de cimento crespo.
Quem é que naquele tempo poderia imaginar que um dia os jovens, como nós então éramos, viriam a ter à sua disposição consolas, computadores, televisões, telemóveis e a jogar à bola completamente equipados à Benfica (coisa horrorosa...), Porto ou Sporting, como agora se vê?...
E como é que um miúdo de agora, artilhada com sapatos, botas e ténis de marca, consegue imaginar o trabalhão que dava a domar um par de botas de couro cardadas (brochadas, como então diziamos)? Só a poder de muito sebo de Holanda e depois de muita roedura nos pés é que se conseguia amansar o couro rijo.
De uma coisa éramos fartos: de cannabis. Havia com fartura e não era preciso escondê-la da Polícia, porque o que nós não queríamos era ser obrigados a consumi-la. A cannabis naquele tempo chamava-se cânhamo e era com ele que se faziam as cordas para levar o gado à feira, atar as carradas de mato ou de lenha, etc. tudo coisas pouco apetecíveis na idade da brincadeira. Julgo que também eram de cânhamo os sacos utilizados para transportar batatas, cereais e outros produtos, sacos esses em que depois de se virar uma metade para dentro da outra formavam uma capa com capuz. Era a gabardina com que os mais pobres se resguardavam da chuva.
Também a minha geração foi uma “geração à rasca”. Depois de sofrer os efeitos e consequências da II Guerra Mundial, chegada à idade adulta viu-se confrontada com a possibilidade de ir por sua vez combater numa outra guerra, como viria a acontecer a tantos. Gerações “à rasca” sempre houve e vai continuar a haver, mas a de agora está bem menos à rasca e tem mais possibilidades para se «desenrascar».
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