quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

De quando "A Bola" era a Bíblia

Antes de se tornar no órgão semi-oficial dos «lampiões», que hoje é, o jornal A Bola era considerado como a Bíblia do desporto português. Fundado por Cândido de Oliveira, Ribeiro dos Reis e Vicente de Melo desde logo comportou, para além da abordagem noticiosa da actualidade desportiva, uma vertente formativa que se apreendia naquilo que publicava. Cândido de Oliveira e Ribeiro dos Reis gostavam de escrever sobre os pormenores tácticos e técnicos do jogo de futebol, sobre os problemas da arbitragem e a formação dos atletas, de modo a esclarecer e tornar mais apetecível a apreciação do jogo por parte dos espectadores.

Cândido de Oliveira, sempre que se deslocava ao estrangeiro em serviço de reportagem, gostava de publicar juntamente com as notícias desportivas uma crónica sobre o país e a cidade que visitava, dando na medida do possível, ou seja, na medida do que a Censura deixava passar, uma visão sobre a vida e a cultura desses locais. Esse procedimento estendeu-se aos outros redactores do jornal, pelo que naquele tempo, em que as viagens eram só um sonho na imaginação da maioria dos leitores, quem queria saber mais para além do desporto, ia assim tomando contacto com outras realidades.

Em 1988 o Belenenses ainda andava na alta-roda do futebol e, estando a disputar a Taça UEFA, deslocou-se a Mostar, na antiga Jugoslávia, hoje Bósnia e Herzegovina, para a disputa de uma eliminatória. A crónica da Bola referia, para além dos pormenores relacionados com o jogo, alguma coisa sobre a cidade e um passeio que o enviado do jornal fez com o então presidente do Belenenses, Mário Rosa Freire, até à histórica ponte do sec. XVI existente no local.

Mais tarde, em Setembro de 2001, encontrava-me de visita à Croácia e numa viagem que fiz de Dubrovnik para Split deparei-me com uma placa de trânsito que indicava a direcção de Mostar. Veio-me então à lembrança a referida crónica da Bola e como a distância não era muita, resolvi entrar pela Bósnia dentro disposto a visitar aquela cidade e a famosa ponte. Deparei-me com um país muito devastado pela guerra, com uma forte presença militar da ONU e a viver ainda tempos muito difíceis. Foi uma visita com o seu quê de deprimente mas que, como acontece com todas as viagens, me tornou humanamente mais rico. A ponte tinha sido bombardeada e os destroços jaziam debaixo de água, no leito do rio Neretva. Havia porém um rasto de esperança; a UNICEF estava a reconstruí-la, e em 2004 os bósnios viram novamente de pé o seu ex-libris.

Quero acrescentar que fui até Mostar conduzido pela pena de Aurélio Márcio, um grande jornalista desportivo e aquele que esteve em mais fases finais dos Campeonatos do Mundo de Futebol. Desapareceu agora aos 91 anos. Obrigado Aurélio Márcio! Nunca mais vou esquecer a sua crónica. Descanse em paz.

1 comentário:

Zi disse...

As voltas que esta "Bola" dá e os seus habitantes... Quem então te haveria de dizer que irias passear por essas bandas...