segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Josias Vandeval de Lima


Josias Vandeval de Lima nasceu ao começo de uma madrugada de Fevereiro em Paranaíba, no justo lugar onde, muitos anos antes, existia uma grande tribo de índios Caiapós. Não é de crer que o mês de nascimento de Josias, o mais pequeno do ano, tenha tido qualquer influência na sua estatura, mas a verdade é que o homem, fosse pela qualidade dos genes, a influência do mês ou uma possível ascendência índia, era baixo e de fraca figura.

Quando Josias Vandeval deixou a adolescências já Paranaíba se lhe tinha tornado numa terra madrasta, tais as dificuldades que encontrava para prover ao seu sustento e da sua família. Por isso, um dia resolveu partir e, começando com uma carona de um camionista amigo, lá foi arrastando o seu 1, 54 m e 53 Kg de peso pela imensidão do Brasil em busca de dias melhores.

De lugar em lugar, de ofício em ofício, acabou por fixar-se na Favela Pavão Pavãozinho, no Rio de Janeiro, virando empregado de balcão num boteco de Copacabana. Foi ali, entre chopinhos e conversas sem compromisso que se tornou doente torcedor pelo «Mengão», o Flamengo.

Para além da sua paixão pelo futebol e pelo seu Flamengo, era um católico fervoroso e devoto de N.ª Sr.ª de Fátima, visitando amiúde a capela que lhe é dedicada, e não faltando à missa dominical. O seu pecadilho era o «Jogo do Bicho»... Conhecia muitos dos «bicheiros» da sua zona e os seus pontos, e era ali que gastava semanal e religiosamente, algum do pouco dinheiro que lhe sobrava. Outras paixões não se lhe conheciam.

Um dia foi de Portugal, do santuário de Fátima mais exactamente, a imagem de N.ª
Sr.ª, que peregrinando por várias cidades do Brasil, arrastou atrás de si milhares de fieis em luzidas procissões. Como não podia deixar de acontecer, quando a imagem peregrina desfilou pelas ruas do Rio de Janeiro, Josias Vandeval de rosário em punho também se incorporou na respectiva procissão, fazendo côro com a multidão que entoava com o açucarado sotaque brasileiro:

À treze dji Maio / Na Cova dá Iria / Ápar´ceu brilhando/ à Virge M´ria ..... Avé, Avé, Avé Mária ... Avé, Avé, Avé Mária “

A certa altura do percurso, Josias que ia enquadrado num grupo de beatas e homens muito mais calmeirões do que ele, tentou aproximar-se nervosamente da ala do lado esquerdo do desfile mas aqueles que o rodeavam, embrenhados no seu fervor religioso, nem se aperceberam do desespero daquela «insignificância» que ia ali no meio. E não cederam passagem.

Josias estava muito nervoso; aproximava-se o ponto onde era afixado o resultado do «Jogo do Bicho» e ele estava certo de que com a benção da Sr.ª de Fátima, daquela vez é que era. O ponto estava cada vez mais próximo e sem querer quebrar a solenidade da procissão, mas não conseguindo sair lá do meio nem conter a sua ansiedade, dava tratos à imaginação para conseguir conciliar os dois mundos: vício do jogo e religião.

Foi então que se ouviu a sua voz aflautado que, sem sair do tom dos cânticos religiosos, entoou:

Você qu´é mais alto / djiga lá si viu / no jogo do bicho / qui bicho sáiu

Ao que o calmeirão que ia ao lado respondeu:

Avé, Avé, Avéestruz ... Avé, Avé, Avéestruz!”

1 comentário:

Marta disse...

então e o Josias ganhou ou não?