
Mão amiga salvou do lixo o documento que a fotografia mostra e fê-lo chegar até mim com a força histórica dos seus 56 anos. Naquele ano de 1954 já não era preciso ir até à Penitenciária para requerer o B.I.; já era possível obtê-lo através da Conservatória do Registo Civil da Lousã.
Esta repartição funcionava então numa pequena sala, ao fundo de um corredor, junto ao salão nobre da Câmara Municipal da Lousã. Dizia-me a minha memória que foi ali que o sr. Mário Mariano, a poder de aparo de aço e tinteiro, num cursivo agressivo e arranhado, lavrou o meu processo de jovem cidadão, quando apareceu este documento, batido à máquina de escrever, a lançar a confusão no meu espírito.
Estarei perante uma traição da minha memória? Julgo que não. Se bem me lembro, nem sequer lá estavam as testemunhas que assinam o documento; só lá estava eu e o funcionário daquela repartição. Ter-me-á sido apresentado o documento para assinar e colocar a impressão digital, recolhidos os dados necessários para o seu preenchimento, e mais tarde, estes dados teriam sido dactilografados no impresso.
As testemunhas que assinaram foram, o sr. Luís Silva, funcionário da Câmara que desempenhava a função de aferidor de pesos e medidas, e o Alcino Mariano, filho do sr. Mário Mariano, que viria mais tarde a ser dactilografo na fábrica de papel do Penedo e meu colega no mesmo escritório. Desconfio que estas testemunhas foram caçadas pelo funcionário do Registo Civil dentro do próprio edifício da Câmara, uma vez que não me lembro de os ter contactado, e que a dactilografia terá sido feita pelo Alcino, numa ajuda ao pai.
Já não tinha de ir à prisão por causa do B.I. mas se observarem o impresso, podem verificar que a consideração pelo cidadão continuava a ser pouca. A impressão está feita a vermelho e, na altura, escrever a alguém com tinta vermelha era o mesmo que estar a mandá-lo à merda.
1 comentário:
Francamente, as artimanhas de que um cidadão se serve para que não nos esqueçamos de o parabenizar !...
Pois então aqui fica já aquele abraço e muitos beijinhos com votos de um dia muito bem passado e, já agora, para o ano vê lá se consegues arranjar mais outra para nos recordar
de novo.
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