domingo, 28 de fevereiro de 2010

Eu, pecador me confesso...

Corria o ano de 1960, era verão, estava eu acampado na Praia de Mira e tinha começado a deixar crescer a barba. Naquele tempo não havia ali um parque de campismo tal como hoje os conhecemos. Acampava-se na mata situada entre a praia e a barrinha - nome que se dá a uma lagoa de água doce, situada a pouca distância do mar –, com a complacência dos Serviços Florestais.

Quase defronte da casa do guarda florestal havia um fontenário onde nos abastecíamos de água e um pouco mais ao lado um bloco sanitário que também utilizávamos. Esse bloco era constituído por dois compartimentos, um para homens, outro para mulheres, e fazendo a separação entre eles, um terceiro compartimento que era utilizado para guardar utensílios vários, onde normalmente estava a senhora que fazia a limpeza das instalações. Não sei mesmo se não era ali que ela residia; já não me recordo. Tanto quanto a minha memória ainda permite, recordo que a parte dos homens tinha um lavatório, um urinol, uma ou duas «casinhas das aflições», um chuveiro e um postigo que dava para a casa da senhora da limpeza, por onde ela assomava de quando em vez para verificar o estado de limpeza dos sanitários.

Uma ocasião, estava eu a lavar a cara no respectivo lavatório, senti abrir-se o postigo e vi aparecer a cabeça da senhora. Cumprimentámo-nos e em seguida ela saiu-se-me com esta:

- O senhor desculpe-me, mas quando olho para si parece-me mesmo o Sagrado Coração de Jesus da igreja de Mira.

Com uma comparação destas está claro que só a podia desculpar e saí dali cheio de vontade de rir, mas todo orgulhoso com a aura de santidade que me acabava de ser atribuída. Razão teria por isso o nosso primo Mário Emílio, quando nas visitas que fazia a nossa casa, era eu ainda um menino, me chamava de Santo Antoninho!

Creio que essa aura de santidade me vem perseguindo ao longo da vida. Certo dia, descendo eu a Avenida Almirante Reis, ao chegar à Alameda deparo com a seguinte inscrição em letras garrafais, no topo do prédio do antigo cinema Império: Jesus Cristo é o Senhor. Perante afirmação tão peremptória, olhei desconfiado à minha volta, não fosse aquela declaração referir-se a outrem, mas como não vi mais ninguém a olhar para cima admiti que o Senhor era eu e que só eu conseguia ver o que ali estava escrito.

Ontem tornei a desconfiar da ordem natural das coisas. Tinha sido convidado para um pequeno lanche em casa da minha filha Catarina, mas quando lá cheguei deparei com a casa cheia de gente. Estavam os meus irmãos, filhas, projectos de genros, sobrinhos e sobrinhas, grandes e pequenos, todos a baterem-me palmas e flash´s de máquinas fotográficas, com sorrisos de orelha a orelha. Veio-me logo à ideia aquela parte da santa missa onde o pároco exclama: “… felizes os convidados à ceia do Senhor…”. Neste caso era um lanche, ou mais portuguesmente uma merenda, mas como era «ajantarado» não se lhe pode proibir a apropriação do termo ceia.

Senti-me num altar. Então não é que aqueles maganos tinham feito aquela cena (lá está: cena em espanhol significa ceia, e a verdade é que no fim até meteu um espanhol) só para me homenagear?! E que bem me soube!... Estava ali a minha família mais próxima quase toda, a mimar-me, a oferecer-me coisas, como se eu fosse um Menino Jesus e eles os Reis Magos do milenar presépio. Nem o bolo com a camisola do «meu» Belém faltou!...

Adorei tudo e comoveu-me especialmente de ver aquela geração mais nova a cirandar à minha volta; nem a pequenina Skie, com as suas três semanitas de vida, faltou à festa. Só foi pena o Henriquito estar doentinho e causar aquela perturbação à sua mamã. Para os dois um beijinho especial.

Eu acho que não merecia tanto, mas confesso que fiquei muito feliz. Não sou por natureza muito expansivo, por isso não deixo adivinhar a alegria que vai cá por dentro, mas podem crer que é muita, do tamanho do Mundo. Julgo que aqueles que já nos deixaram se, por acaso, estiveram a espreitar debruçados na varanda do Céu, também devem ter ficado muito contentes com a semente que cá deixaram: Os Batistinhas.

Do fundo do coração: atodos Muito Obrigado!!!

Pelo sim pelo não, não vá a tal aura de santidade ter alguma coisa de concreto, e como os santos não têm idade, o melhor será por agora esquecer o Arquivo de Identificação e dar a volta ao requerimento do B.I.


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