
Quando aportei a este Mundo já devia trazer em mim o germe da República. Ter-me-á sido transmitido nos genes que carreguei do meu pai, o qual, por sua vez, terá recebido o mesmo germe, como herança, do meu avô Abel Baptista.
A 2 de Janeiro, aqui neste espaço, publiquei um pequeno texto em que desejava a todos “Os Batistinhas” um feliz 2010, mas confesso que não me recordei de que estava a entrar num ano especial: aquele em que se comemora o 1.º Centenário da Implantação da República. Por isso, no primeiro escrito do ano faltou um“Viva a República”, falta que agora reparo.
De um grande escritor português, Aquilino Ribeiro, que me parece estar a ficar injustamente esquecido das novas gerações, trago-vos aqui um trecho respigado do magnífico romance “Via Sinuosa”, onde se relata uma picaresca reunião preparatória da revolução republicana, na vila de Tabosa. A reunião tinha lugar em casa do senhor Chinoca, farmacêutico, solteirão, mas com um «aconchego» em casa. Passemos ao livro:
“Em matéria de armas o debate foi longo e contumelioso e nele deu prova o senhor Chinoca de alevantado bom senso:
- Vale mais prevenir que remediar – disse ele. – Não precisaremos de armas, mas é de toda a prudência tê-las. Quem nos diz a nós que seremos dispensáveis noutros pontos, na cidade por exemplo? E pode muito bem acontecer, como receia meu primo, que os padres subam às torres a tocar os sinos a rebate e que se levante o povoléu. Armemo-nos!
Nina tinha dois rifles, mas desses não abria mão; um era para ele, outra para o seu compadre Sem-tempo, um homem que pegava de um almude pela asa e bebia."
"......."
“O secretário tinha uma antiga pistola de coldres, que pertencera a um parente, capitão de cavalos; dependurara-a na parede, que aquilo era traste mais para a vista que para entrar em danças. Mesmo assim, estava à disposição do comité. E foi num silêncio circunspecto que Pádua sacou de sobre a nádega a browning de calibre 12 de uma bela cor de azeitona madura. Aquilo, sim, era a última palavra das armas de algibeira, uma molazinha corrida e pum! Lá estavam sete balas metidas no samarro dum talassa, mais depressa do que se leva a dizer. E como se pusesse a manobrá-la desassombradamente, Sebastião Arruda soltou um berro:
- Homem, vire lá a pistola para o chão! O Diabo deu fogo com uma tranca e matou a mãe.
- Ah, não arreia! Pode-se jogar com ela a choca sem receio que dispare.
- Com esses estupores, nem descarregadas! –rosnou o alferes.
Manuel Antunes prontificou-se a encomendar a um arraiano, que de Espanha lhe trazia mecha e outra veniaga, uma meia dúzia de smiths. Deitava-se uma finta pelos amigos; em lote e de contrabando não saíam fora de conta.
- Esses revólveres são mais perigoso para o que desfecha que para o alvejado – referiu Pádua, em tom depreciativo-; são uns canifrechos. A bala sai do cano, quando sai, que nem cuspo da boca.
- Pois olhe – replicou Antunes – sei de fonte limpa que é com smiths de fabricação espanhola que estão armados os revolucionários da capital .
- Então que façam o testamento! – sentenciou o moço."
"......"
"Animadamente, proclamava Nina que a fortuna esteve sempre pelo lado do direito e da valentia, quando a senhora Angela, entreabrindo a porta, pela fenda trocou um sinal com Chinoca. A salinha estava cheia de fumos dos cigarros e muito quente da braseira de Torga que, sob a mesa, se ia esfarelando em cinzas de uma branquidão escumada."
A 2 de Janeiro, aqui neste espaço, publiquei um pequeno texto em que desejava a todos “Os Batistinhas” um feliz 2010, mas confesso que não me recordei de que estava a entrar num ano especial: aquele em que se comemora o 1.º Centenário da Implantação da República. Por isso, no primeiro escrito do ano faltou um“Viva a República”, falta que agora reparo.
De um grande escritor português, Aquilino Ribeiro, que me parece estar a ficar injustamente esquecido das novas gerações, trago-vos aqui um trecho respigado do magnífico romance “Via Sinuosa”, onde se relata uma picaresca reunião preparatória da revolução republicana, na vila de Tabosa. A reunião tinha lugar em casa do senhor Chinoca, farmacêutico, solteirão, mas com um «aconchego» em casa. Passemos ao livro:
“Em matéria de armas o debate foi longo e contumelioso e nele deu prova o senhor Chinoca de alevantado bom senso:
- Vale mais prevenir que remediar – disse ele. – Não precisaremos de armas, mas é de toda a prudência tê-las. Quem nos diz a nós que seremos dispensáveis noutros pontos, na cidade por exemplo? E pode muito bem acontecer, como receia meu primo, que os padres subam às torres a tocar os sinos a rebate e que se levante o povoléu. Armemo-nos!
Nina tinha dois rifles, mas desses não abria mão; um era para ele, outra para o seu compadre Sem-tempo, um homem que pegava de um almude pela asa e bebia."
"......."
“O secretário tinha uma antiga pistola de coldres, que pertencera a um parente, capitão de cavalos; dependurara-a na parede, que aquilo era traste mais para a vista que para entrar em danças. Mesmo assim, estava à disposição do comité. E foi num silêncio circunspecto que Pádua sacou de sobre a nádega a browning de calibre 12 de uma bela cor de azeitona madura. Aquilo, sim, era a última palavra das armas de algibeira, uma molazinha corrida e pum! Lá estavam sete balas metidas no samarro dum talassa, mais depressa do que se leva a dizer. E como se pusesse a manobrá-la desassombradamente, Sebastião Arruda soltou um berro:
- Homem, vire lá a pistola para o chão! O Diabo deu fogo com uma tranca e matou a mãe.
- Ah, não arreia! Pode-se jogar com ela a choca sem receio que dispare.
- Com esses estupores, nem descarregadas! –rosnou o alferes.
Manuel Antunes prontificou-se a encomendar a um arraiano, que de Espanha lhe trazia mecha e outra veniaga, uma meia dúzia de smiths. Deitava-se uma finta pelos amigos; em lote e de contrabando não saíam fora de conta.
- Esses revólveres são mais perigoso para o que desfecha que para o alvejado – referiu Pádua, em tom depreciativo-; são uns canifrechos. A bala sai do cano, quando sai, que nem cuspo da boca.
- Pois olhe – replicou Antunes – sei de fonte limpa que é com smiths de fabricação espanhola que estão armados os revolucionários da capital .
- Então que façam o testamento! – sentenciou o moço."
"......"
"Animadamente, proclamava Nina que a fortuna esteve sempre pelo lado do direito e da valentia, quando a senhora Angela, entreabrindo a porta, pela fenda trocou um sinal com Chinoca. A salinha estava cheia de fumos dos cigarros e muito quente da braseira de Torga que, sob a mesa, se ia esfarelando em cinzas de uma branquidão escumada."
1 comentário:
Bem vindo sejas Lousanense!
Ou deverei dizer Republicano!?
Hoje estava a ver TV e pensei que bem sincronizado e actual anda o nosso Lousanense!
Beijokas
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