Continuando com a prosa de Aquilino Ribeiro que, ao que consta, também esteve envolvido em conspirações que deram origem ao movimento republicano.
“A amiga do Chinoca, pedindo vénia, entrou com uma bandeja de chávenas. Trajando rusticamente era muito agradável à vista, com as tranças coladas sobre a nuca a modo de passamanes, e o rosto de alegre parecer e bem proporcionado. Além disso, forte de ancas e alta dos peitos, seu corpo seria como o maior entre as mulheres de meã estatura.
- Esta, sim, é que é uma República! – segredou ao meu lado o Rola dos impostos para o secretário da Câmara. – Onde iria o coirão do Chinoca desencantar um pente destes?
Angela trouxe mais um charão atestado com fálgaros de Tabosa, cavacas das recolhidas de Freixinho, bolos da Teixeira e um pão-de-ló – doçaria que perpectuava in saecula saeculorum a gulosa memória de três conventos vizinhos. E ia a servir o chá, mas, muito desembaraçado para o corpo rebolão, Arruda atalhou:
- Ó D. Ângela, isto é uma mesa de baptizado! Tanta iguaria! Mas, verdade verdadinha, cá o pão-de-ló e os petiscos pedem mais morraça que chá. Amigo Chinoca, se você dá licença opto pela pinga.
- Temos aí um vinho branco da Bairrada, muito espelhadinho e gostoso – disse Ângela sorrindo.
- Pois vai buscar – aprovou o senhor Chinoca.
Saiu ela a passo lesto, enquanto o Nagosa esfregando as mãos, dizia para Arruda, que mal se dignava ouvi-lo:
- Eu também sou do seu partido, ilustríssimo senhor! Para pão-de-ló chá de parreira.
Chinoca, entretanto, passeava a travessa das guloseimas por diante dos correligionários, no movimento onduloso dum sacerdote ministrando a eucaristia.
- Quando vier a República, teremos pois que nos privar destes mimos?! – gracejou Laurentino, que tinha pretensões a chistoso, ao servir-se das cavacas.
- Jejuar? – recalcitrou Nina. – onde é que o credo republicano manda jejuar?
- Não percebeste, homem! – corrigiu Chinoca. – É que estes doces são feitos pelas recolhidas de Freixinho. A República, sendo laicizadora, tem de todo que fechar os conventos.
- Haja ele pão e presunto!... As freiras que vão fazer filhos, que a pátria precisa de soldados.
- São durázias!
- Pois se são durázias, que peguem na roca e fiem. De madraços e madraças está Portugal farto.
Veio vinho; Arruda pegou do copo e ante Ângela que sorria o seu bom sorriso de mulher lhana e amável, brindou:
- À saúde de D. Ângela!
Esvaziaram-se os copos; sobriamente, Chinoca bebia chá.
-Falta-nos aqui o padre Ambrósio para compor um ditirambo a este néctar, capaz de dar vida a um morto! – proferiu Laurentino, castanholando com a língua.
- Lá para isso ele é um barra!
- Há-de ser o bispo da diocese, quando implantarmos a República! – acrescentou Manuel Antunes, atolado num fálgaro.
- Depois, com a separação da Igreja e do Estado – esclareceu Chinoca, sempre mentor – a faculdade de eleger bispos reverte ao Pontífice.
Mas logo Nina levantou a grimpa:
- Qual Pontífice? O Pontífice que mande lá na terra dele. Em Portugal só portugueses.
- Uma Igreja nacional será difícil de estabelecer... – opinou Pádua que tinha estudos. – Que lhe parece, senhor Chinoca?
- Não tenho dúvidas que pode. É um problema de vontade.
Continuávamos atufando-nos em gulosaria; do pão de ló restava apenas uma fatia costaneira negra do forno, com sarrafos aderentes de papel. Nagosa estendeu a mão direita, empunhou o copo com a esquerda e, no gesto hábil de coveiro puxando a terra sobre o caixão depositado, sepultou-a sob uma rija golada. Chinoca olhava com a melancolia pesarosa do forra-gaitas condenado a anfitrião.
Laurentino, num ar solene, avançou para o meio da sala. E, circunvagando o olhar, elevou o copo:
- Meus senhores, bebo à prosperidade de Bento Chinoca, futuro membro das Constituintes!
Chocaram-se os copos; sempre discreto depois de agradecer, Chinoca salvou à República e a todos os correligionários ali presentes. Pádua brindou aos heróicos Mártires de 31 de Janeiro e Nagosa ao Operariado. Mais terreno, de olhos em Ângela muito firme em sua estatura de serrana, Arruda bebeu à bizarria dos senhores da casa. E com saúdes se despejaram mais dois canjirões e outra barcaça de doce.”
“A amiga do Chinoca, pedindo vénia, entrou com uma bandeja de chávenas. Trajando rusticamente era muito agradável à vista, com as tranças coladas sobre a nuca a modo de passamanes, e o rosto de alegre parecer e bem proporcionado. Além disso, forte de ancas e alta dos peitos, seu corpo seria como o maior entre as mulheres de meã estatura.
- Esta, sim, é que é uma República! – segredou ao meu lado o Rola dos impostos para o secretário da Câmara. – Onde iria o coirão do Chinoca desencantar um pente destes?
Angela trouxe mais um charão atestado com fálgaros de Tabosa, cavacas das recolhidas de Freixinho, bolos da Teixeira e um pão-de-ló – doçaria que perpectuava in saecula saeculorum a gulosa memória de três conventos vizinhos. E ia a servir o chá, mas, muito desembaraçado para o corpo rebolão, Arruda atalhou:
- Ó D. Ângela, isto é uma mesa de baptizado! Tanta iguaria! Mas, verdade verdadinha, cá o pão-de-ló e os petiscos pedem mais morraça que chá. Amigo Chinoca, se você dá licença opto pela pinga.
- Temos aí um vinho branco da Bairrada, muito espelhadinho e gostoso – disse Ângela sorrindo.
- Pois vai buscar – aprovou o senhor Chinoca.
Saiu ela a passo lesto, enquanto o Nagosa esfregando as mãos, dizia para Arruda, que mal se dignava ouvi-lo:
- Eu também sou do seu partido, ilustríssimo senhor! Para pão-de-ló chá de parreira.
Chinoca, entretanto, passeava a travessa das guloseimas por diante dos correligionários, no movimento onduloso dum sacerdote ministrando a eucaristia.
- Quando vier a República, teremos pois que nos privar destes mimos?! – gracejou Laurentino, que tinha pretensões a chistoso, ao servir-se das cavacas.
- Jejuar? – recalcitrou Nina. – onde é que o credo republicano manda jejuar?
- Não percebeste, homem! – corrigiu Chinoca. – É que estes doces são feitos pelas recolhidas de Freixinho. A República, sendo laicizadora, tem de todo que fechar os conventos.
- Haja ele pão e presunto!... As freiras que vão fazer filhos, que a pátria precisa de soldados.
- São durázias!
- Pois se são durázias, que peguem na roca e fiem. De madraços e madraças está Portugal farto.
Veio vinho; Arruda pegou do copo e ante Ângela que sorria o seu bom sorriso de mulher lhana e amável, brindou:
- À saúde de D. Ângela!
Esvaziaram-se os copos; sobriamente, Chinoca bebia chá.
-Falta-nos aqui o padre Ambrósio para compor um ditirambo a este néctar, capaz de dar vida a um morto! – proferiu Laurentino, castanholando com a língua.
- Lá para isso ele é um barra!
- Há-de ser o bispo da diocese, quando implantarmos a República! – acrescentou Manuel Antunes, atolado num fálgaro.
- Depois, com a separação da Igreja e do Estado – esclareceu Chinoca, sempre mentor – a faculdade de eleger bispos reverte ao Pontífice.
Mas logo Nina levantou a grimpa:
- Qual Pontífice? O Pontífice que mande lá na terra dele. Em Portugal só portugueses.
- Uma Igreja nacional será difícil de estabelecer... – opinou Pádua que tinha estudos. – Que lhe parece, senhor Chinoca?
- Não tenho dúvidas que pode. É um problema de vontade.
Continuávamos atufando-nos em gulosaria; do pão de ló restava apenas uma fatia costaneira negra do forno, com sarrafos aderentes de papel. Nagosa estendeu a mão direita, empunhou o copo com a esquerda e, no gesto hábil de coveiro puxando a terra sobre o caixão depositado, sepultou-a sob uma rija golada. Chinoca olhava com a melancolia pesarosa do forra-gaitas condenado a anfitrião.
Laurentino, num ar solene, avançou para o meio da sala. E, circunvagando o olhar, elevou o copo:
- Meus senhores, bebo à prosperidade de Bento Chinoca, futuro membro das Constituintes!
Chocaram-se os copos; sempre discreto depois de agradecer, Chinoca salvou à República e a todos os correligionários ali presentes. Pádua brindou aos heróicos Mártires de 31 de Janeiro e Nagosa ao Operariado. Mais terreno, de olhos em Ângela muito firme em sua estatura de serrana, Arruda bebeu à bizarria dos senhores da casa. E com saúdes se despejaram mais dois canjirões e outra barcaça de doce.”
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