Nos últimos tempos tinha perdido o seu ar de rezingão e pouco falava. Usava, por vezes, um boné na cabeça e eu conseguia arrancar-lhe um pequeno sorriso quando o comparava ao “Zé do Boné”, um boneco que tinha aparecido publicado alguns anos atrás no jornal “Primeiro de Janeiro”. Tirando isso e uns vagos queixumes sobre o frio, permanecia atento às conversas em seu redor pouco intervindo nelas.
Se lhe falassem no canário, o caso mudava de figura, e aí ia ele todo vaidoso abrir-lhe a porta da gaiola e exibi-lo empoleirado no dedo. Nas suas ocupações diárias havia ainda lugar para a preparação e distribuição de comida a vários gatos vadios que lhe invadiam o quintal.
Mas gosto mais de recordá-lo muitos anos antes, rezingão e filósofo, tentando ajeitar uma chave infalível para o Totoloto ou jogando à sueca no Café Central com o sr. Joaquim Barreto, o sr. Laureano e outros parceiros de ocasião. De baixa estatura, perdia-se no meio dos seus alunos de Matemática que invariavelmente o rodeavam e que ele ensinava com ternura e competência.
Se recuar mais uns anos, até à minha meninice, recordo aquele tio que nos chegava de longe, com uma prisca de cigarro de onça, marca Francês, entalada ao canto da boca, um cavalete, umas telas e uma caixa com tintas e pincéis. E a maneira como ele se afastava do quadro e semicerrava os olhos, para avaliar o efeito das cores e linhas com que ia compondo o quadro que tinha entre mãos.
De volta dos seus quadros (e junto da sua Pipa) é que ele se sentia feliz... Se fosse vivo, fazia hoje anos o tio Gonçalves.
sexta-feira, 6 de março de 2009
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1 comentário:
E viverá para sempre dentro de todos nós tal e qual o recordas neste pequeno texto.
Pois mesmo sendo a minha meninice bem mais recente a imagem é a mesma e igualmente nitida.
Obrigada pela recordação
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