Olá familia
Prometi que vinha cá de vez em quando falar de coisas da família, viagens ou trivilidades do dia-a-dia e aqui estou eu para falar de viagens e trivialidades do dia-a-dia.
Ora estava eu a preparar-me para mais uma viagem a São Salvador da Bahia de Todos os Santos, terra do Menelaw Sete, Marisa Monte, Gilberto Gil, Tribalistas, Ana Carolina, Jorge Amado; do restaurante da Dédé ou o Maria Mata Mouros; do maravilhoso Bairro do Pelourinho, do melhor Carnaval do Mundo e do nosso Hotel Catussaba, que fica a uns bons cinquenta quilómetros destas coisas todas, quando toca o telefone com um colega do outro lado a pedir para trocar de voo comigo porque sei lá quem ía de lua de mel ou sei lá o quê e ele desfazia-se em por-favores e fico-a-dever-umas! O voo ocupava exactamente os mesmos dias que o Salvador, o homem lá precisava do favor e não havia razão par não fazer a troca. Aceitei e dessa maneira vim parar a um lugar que se chama Caracas, num país que se chama Venezuela e que fica exactamente no mesmo sítio onde era dantes a Venezuela!!
A maior parte dos voos de longo curso da TAP são operados pelas tripulações em “night stop” que é uma expressão inglesa que quer dizer que ficamos uma noite nestes lugares antes de voltar para casa. No essencial chegamos, combinamos para jantar, dormimos, encontramo-nos todos no pequeno almoço, damos uma voltinha, piscina, ginásio televisão ou blog, e vamos embora trabalhar. O evento principal é obviamente o jantar, por ser o único evento na realidade, e ocupa no cockpit logo uma boa hora e meia de conversa, entre opiniões sobre restaurantes, experiências e histórias variadas. Desta vez o Comandante disse: “... da última vez que fui a Caracas jantei num restaurante que tinha à porta, a receber as pessoas, a Miss Universo com as duas Damas de Honor...”. A decisão ficou tomada e foi com este total desrespeito pela etiqueta de cockpit que em segundos se foi todo o potencial da tal hora e meia. Passadas as outras seis horas a falar de futebol e gajas aterrámos em Caracas.
A viagem do aeroporto para o hotel foi por um caminho diferente do normal porque havia umas partes de estrada cortadas por um acidente qualquer. Somos transportados numa carrinha com os cortinados fechados e com escolta armada. Fomos por uma via rápida que segue primeiro por um bocadinho de montanha e depois entra numa zona de cidade que é tipo favela mas com a via rápida e cruzamentos e tal. Isto dura uns quarenta e cinco minutos e é só barracaria a perder de vista, tirando a parte em que aparecem uns jardins enormes e lindíssimos atrás de uma vedação substancial de um palácio espectacular, que é a casa do Chavez. Comecei a interrogar-me se Caracas era só feito de barracas e à procura no horizonte de um provável business center, normalmente localizado no centro das cidades e caracterizado por prédios altos de escritórios. Os previstos prédios lá apareceram no horizonte, aí uns dez, e a paisagem começou a mudar. Apareceram umas vivendas giras atrás de vedações electrificadas e outras atrás de muros com arame farpado ou então com o sempre popular e eficaz vidro de garrafas partidas aplicado com cimento (esta solução sempre foi a minha preferida por causa das possibilidades criativas e porque se pode pôr de maneira a que os bandidos não percebam que está lá e assim tentem mesmo assaltar as casas – para que não se perca pitada aconselho a instalação de câmeras de vigilância a cores). E depois surgem uns portões de ferro com uns bons quatro metros de altura, abertos quase sempre, que dão para uma mini avenida ajardinada nas margens e para o Hotel Grand Melia Caracas, que é de uma ostentação ridícula, que como toda a gente sabe, é de longe do tipo de ostentação mais fixe que há. Um festival que nunca mais acaba de marmores cremes, brancos e vermelhos, com lustres em tectos altíssimos e coisas douradas por todo o lado!
Uma vez no quarto tive oportunidade de vêr na RTP Internacional o Cândido Barbosa contentíssimo por ter conseguido aquela que nas suas próprias palavras foi uma “inesquecível centagésima vitória” e o Emanuel Silva a pedir desculpa aos portugueses por só conseguir ser o oitavo melhor do mundo no desporto em que ele compete, calculo que afectado pelas declarações espoletadas pela idiota da Vanessa Fernandes. Neste país já tinha visto tudo mas um atleta a fazer figuras destas, claramente deslumbrado pela medalha apesar da performance abaixo da do seu ranking, prejudicando a imagem dos atletas e até mesmo o ambiente e, no limite, as prestações que se seguiram, parece-me que aínda não! Eu que, imbuído de espirito olímpico e dever patriota, fiquei acordado até às não sei quantas da manhã para vêr essa pessoa competir, sinto-me completamente traído e até já engendrei um plano de vingança: a partir de agora, sempre que uma competição da Vanessa Fernandes me apanhe desprevenido, vou imediatamente dormir. Toma!
Quanto a esta cidade nova para mim devo dizer que, perante a inevitável comparação com outras grandes cidades da América do Sul, ganha em tudo! Mais perigosa (em nenhuma outra escala temos escolta armada, que eu saiba!); mais barracas ao estilo favela que até o Rio de Janeiro (para quem pensava que isto é impossível e que eu devo estar a exagerar digo já que nem tem comparação); mais prédios e infra-estruturas degradadas fora das barracas e favelas que qualquer outro país que eu tenha visitado, à excepção de Cuba claro, que não tem barracas e por isso necessita de aplicar a degradação a todo o resto para se integrar convenientemente nesta parte do mundo; e a cidade que provoca maior sentimento de insegurança em pessoas que passam a vida em lugares deste género e que estão, pelo menos alguns deles, habituados a estar à vontade em verdadeiros barris de pólvora como alguns bairros de Joanesburgo ou em situações de cortar à faca como as operações stop da polícia do Brasil, que são os tripulantes de bordo.
O dinheiro do petróleo não se nota em nada. Nas partidas do aeroporto há uma fila para o raio-x civil logo seguida de uma fila para o raio-x militar, com uma máquina igualzinha. A polícia de alfândegas aparece a todos os voos no fim do carregamento para fazer uma inspecção que atrasa o voo em meia hora mínimo, calculo que na tentativa de ser comprada pela TAP para expeditar este processo inventado (que eu saiba isto não acontece em Angola, Moçambique, Senegal, São Tomé, África do Sul, Brasil ou qualquer outro país destino onde pudéssemos imaginar esta cena). O aeroporto de Caracas, que é uma cidade com uns 10 milhões de habitantes, tem menos movimento que o do Porto e está com umas obras de ampliação que parecem sempre paradas. Em suma, um sem fim de sintomas de desgraça que resulta da aplicação, a uma sociedade com tendência para a desorganização e descontrole, de um sistema que conseguiu até destruír sociedades que começaram de uma boa base. A única coisa que neste país parece fazer sentido é a marca de fabrico dos velhotes autocarros do sistema público de transportes: ENCAVA. Mais apropriado seria impossível!
Desculpem a extensão da redacção. Distraí-me! Para a próxima prometo só pôr coisas da família.
Beijos para todos
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4 comentários:
olá,
apesar de efectivamente extensa a descrição,não possso deixar de dizer que me senti verdadeiramente em Caracas. Sim! faltou apenas mencionar as decorações de ferrugem pelos "arranha céus" abaixo. Tudo chora naquela terra. E as grades que teimam em fechar todas as janelas do R/C ao 57º andar não são excepção e fazem-no em tom de ferrugem, talvez para condizer com a "favelenta" paisagem?! Mas não se detenham e se tiverem oportunidade viagem até ao norte e visitem Chichiriviche e seus "caios" que é do mais belo que o mundo nos oferece.
olá,
apesar de efectivamente extensa a descrição,não possso deixar de dizer que me senti verdadeiramente em Caracas. Sim! faltou apenas mencionar as decorações de ferrugem pelos "arranha céus" abaixo. Tudo chora naquela terra. E as grades que teimam em fechar todas as janelas do R/C ao 57º andar não são excepção e fazem-no em tom de ferrugem, talvez para condizer com a "favelenta" paisagem?! Mas não se detenham e se tiverem oportunidade viagem até ao norte e visitem Chichiriviche e seus "caios" que é do mais belo que o mundo nos oferece.
tanta conversa... e afinal a miss Universo e as damas???? fiquei sem saber!!! falam ,falam...
Não fomos. Acabámos por jantar no hotel com a tripulação toda!!
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