Alentejo, dia tantos do tal de dois mil e tal.
São treze horas e vinte minutos de um dia de calor abrasador, não sopra a mais leve brisa e há um silêncio no ar como se toda a natureza estivesse adormecida. De quando em vez, um ou outro som vem rasgar esse silêncio, mas surge abafado, como que envergonhado de vir perturbar a paz do dia; um zumbir de insecto, o cantar de um galo que parece a léguas, um piar de pássaro em busca de sombra, um chapinhar de água, do André, na piscina.
O pai pescou uns belos sargos logo pela manhã, na banca do supermercado, e está de volta do grelhador a acabar de assá-los. Enquanto escuta o estalar das brasas e o chiar do peixe na grelha, bebe uma Sagres fresquinha e pensa em como seria bom montar ali um aparelho de ar condicionado.
Em casa, a Rita pegou na viola sem muita vontade. Preferia estar a jogar matraquilhos, mas como não tem mesa, vai tentando tirar uns acordes que aprendeu recentemente. No grande alpendre a mãe tempera uma salada montanheira enquanto atende o telemovel, e a avó aparece com uma travessa de batatas fumegantes na mão gritando para todos:
- Vá meninos, despachem-se todos para irmos almoçar!
Entretanto, um gato da visinhança acercou-se sorrateiramente do travessa do peixe, roubou um sargo sem que o pai notasse e foge com ele na boca. Lá longe, procurando o fresco na sombra do alpendre, está o cão Tripé a quem a manobra não passou despercebida e arrancando de imediato vai no encalço do gato ladrão. Gera-se uma enorme confusão, com o gato largando na poeira o apetecido peixe. Na precipitação da fuga entorna uma garrafa de petróleo que tinha servido para ajudar a atear o fogo, o petróleo derrama-se por cima do peixe assado e deixa toda a família sem o apetecido almoço.
A principio todos gritaram contra o cão e contra o gato, mas depois, perante as consequências do desastre, começam a lamentar o sucedido e à procura de soluções para remediar a questão.
É então que aparece o avô, de máquina fotográfica na mão, depois de ter tirado a fotografia n.º 687 ao Tripé, que entretanto regressara a abanar o rabo, depois da corrida ao gato. Como é pessoa de soluções rápidas, com um sorriso de satisfação ao canto da boca exclama:
- Não faz mal. Vamos todos almoçar ao António!
É que para ele, almoço a sério era mais bifes...
Aconteceu no Alentejo, no dia tantos do tal de dois mil e tal e eu não estava lá.
7 comentários:
Muito bem escrito, muito bem pensado,mas com o petróleo entornado tiveste a sorte de não incendiares o Alentejo.
Esta história é baseada em factos reais e não há coincidências!
Que pena eu não ter estado lá também! :)
Pois que esta ficção não está nada longe duma possível realidade, só se espera que, como muito bem disse/escreveu a Lagartinha, o petróleo não provoque nenhum incêndio...
E neste tempos de crise porque não umas latinhas de atum, ou umas sardinhitas de conserva para substituir o peixinho roubado/carbonizado?...
grande imaginação... adorei a ideia e ainda gostei mais do facto de ter sido dedicado a mim.
Deus queira que o que aconteceu na historia não se venha a realizar na realidade! Não quero ficar sem os meus belos sargos. ;)
olá a todos ;rui (já por aí deixei um montede comentários ) e mail:ruibapti@iol.pt
depois apaguem porque não valem grande coisa ;)
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