
Como é que um republicano escuta um discurso do Rei? Os monárquicos, que atribuem um desígnio divino à Família Real, devem ouvi-lo com um chuveirinho de Altezas e Majestades, perdigotados em murmúrios de lábios reverentes, mas nós, os republicanos, não comungamos de tal fé. Por mim, que fui ontem assistir a um, limitei-me a ouvi-lo atentamente, refastelado na cadeira H8 da sala 2 do cinema City de Alfragide.
Adivinharam! Refiro-me ao magnífico filme de Tom Hooper, “O discurso do Rei”, interpretado magistralmente por Colin Firth e Geoffrey Rush, entre outros. E, para dizer a verdade, até me comovi no final, na cena em que o monarca assoma à varanda do Palácio de Buckingam para receber os aplausos dos súbditos que o aclamavam, após o discurso à nação em que anunciou a entrada da Inglaterra na 2.ª Guerra Mundial.
Ainda era um menino quando aquele terrível conflito começou e terminou, mas as imagens daquela família unida e corajosa transmitindo ânimo ao seu povo, que nos chegavam através das quase clandestinas revistas britânicas sobre a guerra, ainda estão bem vivas na minha memória, porque desde muito cedo me apercebi de que algo de tenebroso ameaçava o Mundo nesse tempo, através das palavras do meu pai e demais família. Portanto, embora republicano, não deixei de guardar no meu íntimo uma respeitosa admiração pelo rei Jorge VI e sua família, que nos deu um grande exemplo de coragem e perseverança durante os dramáticos anos de 1939 a 1945.
No entanto o filme não é sobre a guerra , mas sobre a luta que o rei travou ainda antes dela começar, para vencer o obstáculo físico que era a sua gaguez. Luta em que foi auxiliado por Lionel Logue, um valoroso e dedicado australiano que, sem quaisquer habilitações médicas para o fazer, desempenhou com tenacidade e determinação o papel de terapeuta da fala.

Por isso, ao sair da sala, não pude impedir a minha imaginação de voar até à Maria Luís, abelha mestra da colmeia de Faro, que vai agora iniciar o seu estágio nessa difícil mas desafiante tarefa, depois de concluídos os estudos que a habilitam para tal. Assim, quero aproveitar este espaço para lhe dar a maior força e desejar todo o êxito nesta nova etapa da sua vida. Julgo que toda a comunidade Batistinha está comigo e me acompanha neste desiderato (1).
Força aí, IS! Vais ter muita gente a necessitar da tua ajuda. Espero é que não seja para ajudar a preparar o discurso do Rei. Longe vá o agouro...
1) Palavra cara, em latim desideratum, que estará à altura das circunstâncias.
1 comentário:
E porque não para ajudar o discurso do Presidente?... Parece-me que não seria de todo inútil, pelo menos nos próximos 5 anos.
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