sábado, 22 de janeiro de 2011

A saúde, o tempo e a crise.

Na adolescência, quando o fulcro de todas as atenções era virado para amores e paixões, aprendi que um tal Blaise Pascal teria afirmado um dia: “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. Homem sábio, aquele!

Não sendo hipocondríaco, nem tendo particular afeição por médicos, medicamentos ou hospitais, o certo é que as tais “razões que a própria razão desconhece”, empurraram-me para o Hospital de Santa Maria por via de certa menina e, anos mais tarde, uma outra menina, a «menina Burrélia», bactéria que se alojou junto ao músculo a que chamam coração, deu-me a primazia de conhecer um bloco operatório daquele instituição. Por isso, durante alguns anos percorri e conheci alguns corredores daquele velho Hospital.

Até ao inicio dos anos 30 do sec. XX, os cuidados de saúde da população eram habitualmente prestados no domicilio dos pacientes e os hospitais estavam reservados para o atendimento dos pobres, indigentes, dementes e incapacitados. Só em 1933 o Governo dá uma outra atenção ao problema da saúde em Portugal e pelo Decreto 22917 de 31/7/1933, determina a construção de dois hospitais escolares, um Lisboa e outro no Porto.

Nesse sentido, em 1940 dá-se inicio à construção do Hospital de Santa Maria, segundo um projecto do arquitecto alemão Hermann Distel, que traçou uma planta em forma de H, com dois corpos independentes unidos por três corpos transversais. Pretendia-se então separar a parte hospitalar da parte universitária, atribuindo a cada uma das vertentes um dos corpos principais do edifício.

A 2.ª Guerra Mundial vai atrasar imenso a construção devido à escassez de materiais pelo que só em 1/12/1954, com toda a pompa e circunstância e grandes parangonas nos jornais da época, é finalmente inaugurado o Hospital.

Quando comecei a percorrer as suas entranhas, há quase 40 anos, o edifício acusava já o desgaste do tempo e da utilização por milhões de pessoas. Havia (e ainda há) corredores e recantos absolutamente soturnos, especialmente nos pavimentos abaixo da cota do solo, e notava-se um sinal de degradação no edifício que era acentuado pela comparação com a modernidade de alguns dos equipamentos médicos.

Voltei agora ao velho Hospital, andei por vários serviços, e fiquei admirado com a renovação daquela unidade. Enquanto esperava que a pessoa que ali acompanhei fosse atendida, fui matando o tempo lendo as informações que acima transcrevo e apreciando a renovação e modernização em curso. Verifica-se uma notória melhoria em algumas instalações, que agora se apresentam modernizadas, limpas e bem iluminadas, fazendo esquecer o ar lúgubre que tinham antigamente. Ainda há locais que não foram mexidos e que irão sendo, certamente, melhorados gradualmente, mas a renovação que já vi deixou-me contente. Constatei que o número de pessoas que agora circula naquela instituição aumentou substancialmente, o que faz supor um aumento exponencial dos pacientes ali seguidos, o que porém não impediu a melhoria das instalações.

Muita gente se queixa da saúde em Portugal, mas entra pelos olhos dentro que muita coisa vai mudando para melhor apesar do constante aumento dos custos e da crise que agora nos bate à porta. Estive no Centro de Técnicas de Cardiologia, uma unidade moderna, bem equipada e com todas as comodidades para o utente. Na minha frente tinha um moderno LCD LG e só por ele pude espreitar um pouco da falta de dinheiro que assola o país. Como possivelmente não há verba para pagar à ZON ou ao MEO, o programa exibido foi sempre o mesmo, apenas se alterando de tempos a tempos com alguma variação na numeração, como podem verificar abaixo.


1 comentário:

Zi disse...

Pois é, nem tudo ou mesmo pouco está como gostaríamos, mas a diferença entre o que havia e o que há é bem significativa.Só diz mal quem não conheceu, ou pior ainda, quem se esqueceu , ou não se quer lembrar de outras realidades não muito longíquoas. Mais uns anitos e talvez venham a ter saudades, não que o deseje mas... :-(