segunda-feira, 5 de julho de 2010

HOMENAGEM

Os Santos Populares já lá vão, assim como o donaire, singeleza e sabor a povo dos seus festejos. Aqui e ali ainda um festão, ainda um balão, já mordidos pela inclemência do Sol na garridice das suas cores. Subsiste no ar o perfume da sardinha assada, que esta, na vaidade da sua prata, gosta de vir passar o Verão a Portugal, sem cuidar de saber dos autos de fé que lhe estão reservados.

A minha Lousã também festeja os Santos Populares, com mais relevo no São João, que é o dia do feriado Municipal. Desde que me conheço que o dia 24 de Junho é dia da Feira de São João, uns anos melhor, outros pior, mas sempre um dia diferente. Este ano mais uma vez decorreu com muito êxito, pelas informações que me chegam.

Feira sem folia não é feira e por isso há sempre um programa de animação bem elaborado. As velhinhas marchas dos Antónios, Joões, Pedros e dos Outros, já aqui relembradas, deram lugar a outras, mais elaboradas, representando freguesias ou instituições e que só este ano foram doze. A saber: Freguesia da Lousã, Clube Recreativo Vilarinhense, Cinco Lugares, ATL´s da ARCIL, Santa Casa , Crianças, ARCIL, Abelhinhas de Foz de Arouce, GERL, Serpins, Casal de Ermio e Gândaras.

Por todo o lado houve festas e bailaricos até às tantas, com actuações de artistas e grupos locais e nacionais, mas a celebração genuinamente popular, que eu quero aqui destacar foi, mais uma vez, aquela que teve lugar na Travessa, lugar mítico da minha infância e ponto de partida para a magnífica aventura das vidas de todos nós.

Foi a partir da Travessa que viriam a desabrochar as mais lindas flores da nossa família (1) e foi também ali que nasceu a mais perfumada Rosa que a Lousã viu nascer. Hoje quero prestar uma singela homenagem a essa Rosa, que eu conheço desde menina bem como a toda a família. Já vão saber porquê.

Num qualquer ano da sua vida, desgostosa com a apatia em que tinha caído o nosso bairro, resolveu organizar ali, pelo São João, uma sardinhada para a qual convidou a vizinhança e os clientes habituais do estabelecimento de sua mãe. Desde então nunca mais parou. Todos os anos, pelo São João, a Rosa compra as sardinhas, monta os assadores, compra a boroa e as bebidas, assa o peixe e serve quem ali se desloca.

Actualmente a Rosa, que entretanto enviuvou, tem a seu cargo a mãe, acamada e totalmente dependente, a quem trata primorosamente. Apesar disso, aquele grande coração, ainda tem espaço para organizar o São João do nosso bairro. Ali toda a gente come e bebe até querer, sem que ninguém lhe apresente a conta. Está na consciência de cada um decidir a altura apropriada para se acercar da Rosa e depositar no bolso do seu avental o valor que entender. Por muito estranho que pareça, o gesto magnânimo da Rosa não deixou, até hoje, de ser honestamente recompensado.

Eu, que me comovo facilmente, não deixo de sentir uma lágrima ao canto do olho quando penso nestas coisas. Porém, como o único préstimo das lágrimas é a lavagem e lubrificação do globo ocular (o que já não é pouco, reconheça-se…), reconverti-as para esta homenagem de pouco valor, cuja única ambição é revelar esta Rosa àqueles que ainda a não conhecem.

O São João na Travessa




1) Como é evidente não me refiro a mim, galho seco e carunchoso desta árvore. Tem a ver com as novas gerações de Batistinhas que ainda transportam nos genes os marcadores dos Baptistas da Travessa.

2 comentários:

Marta disse...

Grande Rosa! E muito amiga da Tia Alda e do Tio Gonçalves!!

Zi disse...

Bem verdade, muito, muito AMIGA e sempre muito, muito prestável e também do Luís Manuel que, ao que julgo, nunca o terá sabido reconhecer minimamente.