sexta-feira, 21 de maio de 2010

A Fonte de Ançã

Em 1948 eu era um ganapo sonso de 10 anos e a rua Dr. Francisco Viana onde morava, ainda era uma fita esbranquiçada de macadame que ia até às arvores, nome que dávamos a um pequeno largo com os lindos e enormes plátanos que ainda hoje o sombreiam .
O piso térreo da rua prestava-se aos jogos do «pião à cova», do «bogalho» e da «malha», assim como a parede do ti Berrugas era o destino certo para o «pics», jogado com botões ou velhas moedas. O largo das árvores, com mais amplidão, era o estádio onde se faziam as grandes «futeboladas» com bolas de trapos, do muda aos 5 e acaba aos 10.
Com um mundo daqueles aos meus pés mais o vírus da Liberdade que tinha apanhado desprevenidamente à nascença, compreende-se perfeitamente que não sobrasse muito tempo para estudar. Depois de uma 4.ª classe penosa tinha pela frente o exame de admissão ao liceu para que não estava preparado, pelo que após algumas tentativas frustradas para me fazer entrar nos eixos, fui deportado para casa de um primo que era professor primário em ANÇÃ.
Foi ali, na casa dos primos Amândio e Luísa, um jovem casal de professores, que fiz a minha preparação para os exames de admissão ao Liceu e do 2.º ano. A poder de reguadas e abundantes canadas nas orelhas, a matemática e o francês lá foram arranjando espaço para se arrumar na minha pobre cabeça, de modo a não deixar ficar mal os mestres no dia dos exames. A verdade é que aqueles três anos passados longe de casa acabaram por resultar e consegui passar facilmente em todos os testes.
Apesar de desterrado e mal grado as saudades de casa e da família, acabei por tirar partido daqueles tempos e daquele local. ANÇÃ era à altura uma grande aldeia que já tinha sido vila e até concelho, mas ainda privada de certas comodidades que a Lousã há muito possuía. Não havia electricidade, saneamento básico ou distribuição de água ao domicílio, mas tinha uma população simpática, alguns bons edifícios e um modo de vida agradável. Foi berço do escritor Augusto Abelaira e do grande historiógrafo e político Jaime Cortesão, de quem ainda ali habita um familiar, o meu amigo Alexandre Cortesão.
A água para abastecimento das casas era recolhida pelo método de chafurdo na Fonte de Ançã, uma grande nascente que debita um caudal de 20.400 l/m a partir da qual nasce uma grande levada, como podem verificar na foto.

É uma água calcária (característica da região) cujo sabor não me agradava por ser muito diferente da água da serra da Lousã. Mas era a que havia...
Em face do que acabo de descrever, podem imaginar o corrupio de mulheres de cântaro à cabeça e, como era tradicional, os romances que nasceram a caminho de, e na, fonte. Havia raparigas que demoravam uma eternidade a ir à água. Por vezes, depois do cântaro cheio tornavam a despejá-lo para ficar mais um pouco a namorar; ao chegar a casa alegavam que estava muita gente na fonte e tiveram de aguardar a vez de encher.
Lembrei-me destes episódios com mais de 60 anos por causa da crise financeira que o país atravessa e dos remédios para a debelar. Também o ministro Teixeira dos Santos, qual menina casadoira da ANÇÃ da minha meninice, vai aplicando a sua retenção na fonte, para proveito do
País (diz ele!).
A mim diz-me a experiência que a retenção na fonte é sempre uma coisa de grande utilidade, porque uma vez que a Júlia fez uma retenção na fonte de Ançã, também eu aproveitei a demora para colher outros tributos. Mas isso são contas de outro rosário e não são para aqui chamadas.
Fixem o nome de ANÇÃ, vila e freguesia do concelho de Cantanhede, situada a 12 Km de Coimbra, que bem merece uma visita. Para além de algumas casas bonitas, tem os famosos bolos, a pedra que serviu para construir muitos monumentos do nosso país e uma pinga da Bairrada que não é para despresar.

Igreja de Ançã




1 comentário:

Zi disse...

Sonso...sonso... O Tanas!
Não é o próprio que diz que aproveitou a retenção na fonte, feita pela Júlia, para colher outros tributos?
E isto quando ainda era um imberbe rapazola!