
Fui roubar o título ao programa do saudoso Vitorino Nemésio, como o poderia ter feito com Trindade Coelho e o seu livro “ In illo tempore”, dado que, retomando o tema das prisões, vou aqui recordar as vezes em que estive na Penitenciária de Coimbra.
A primeira vez entrei pelo portão que a fotografia reproduz, ao passo que, da vez seguinte, entrei por uma porta situada no lado oposto. Quando entrei pelo portão da foto teria 10 ou 11 anos e dirigi-me a uma porta que também se vislumbra ao fundo, para requisitar o meu 1.º cartão de identidade. Que naqueles tempos não se brincava em serviço… se querias ser um cidadão devidamente identificado, tinhas de passar pela Penitenciária.
Já da vez segunda, objectivos mais prosaicos me guiavam; fui ali, acompanhado de familiares, para levantar um regador fabricado pelos presidiários e, se bem me lembro, um livro, encadernado pelos mesmos. Portanto, nada de passagens com direito a sujar o Registo Criminal.
Mas não se ficam por aqui as minhas passagens pela prisão. Já adolescente, travei amizade com os irmãos Carranca, dois jovens que viviam nas margens do crime. Não que os seus feitios os impelissem para o roubo, o estupro ou o homicídio, que aquilo era, e ainda é, felizmente, gente 5 estrelas. A inclinação vinha mesmo por via paterna; é que o sr. António Carranca, pai deles, exercia o ofício de oficial de diligências no Tribunal da Lousã.
De modo que aquilo era um manancial de informações judiciárias: desde os pormenores das demandas à cotação dos advogados e ao rigor dos juízes e delegados do Ministério Público. Ainda recordo os nomes de alguns advogados de então, afamados uns pelos seus dotes oratórios, de fazer chorar as pedras, outros pelo seu conhecimento dos códigos e meandros da Justiça, tais como os drs. Fernando Lopes, Alberto Vilaça, Roque Paím, Albino Vaz, Augusto Simões, etc. Dos juízes só recordo o nome do dr. Afonso Rocha, pessoa muito humana e justa, e que fazia de conta que não sabia que nós espreitávamos os julgamentos da porta das testemunhas. É que sendo ainda menores não podíamos entrar na sala de audiências.
Foi pois, então, que aliciado pelos manos Carranca, fui visitar os presos à cadeia comarcã da Lousã, pelo menos uma vez. Não me lembro se o carcereiro da altura era ainda o chamado “Pedro Carcereiro”, de seu nome Augusto Pedro, figura muito popular, a despeito da missão que desempenhava. Era ele quem habitualmente fazia de «ponto» nas récitas de amadores que então se realizavam na vila, sob a batuta do mestre fotografo Francisco Ferreira.
Se não era o Pedro Carcereiro teria que ser o João Manso, pai de uma moça muito vistosa que fugiu da prisão para se ir prender ao nosso amigo Fernando Barros, nosso vizinho na Rua Dr. Francisco Viana. Lá está a sequência, libertação, prisão, que abordámos noutro escrito.
A substituição do sr. Augusto Pedro pelo sr. João Manso iria mais tarde dar origem à mudança do nome da cadeia, pelo menos no imaginário popular, pois quando alguém ia preso ou era ameaçado de tal, sempre se dizia que estava ou poderia ir parar à Pensão do João Manso.
Desterrado em Monchique, aprisionado pelo frio e pela chuva, com obras em casa, atulhado no pó e confinado à sala de entrada, deu-me para isto: moer-vos a paciência com as minhas recordações e madurezas.
E viva a República!
2 comentários:
Diz-se que molhado é abençoado. E mesmo correndo o rico de estar já a repetir-me.. abençoado São Pedro que com tão molhado Carnaval nos trouxe a todos a esta sala de estar a contar as nossas histórias.
A conversa e o seu ritmo é tal que mais parece que estamos á volta da mesa a tomar chá.
Viva o mau tempo e a tecnologia.
Quanto à República nem sei que diga tais as parangonas dos pasquins...
Pois é verdade, lembro-me bem de quanto tu te pelavas por ir dar uma espreitadela, sempre que podias (não sei mesmo se algumas vezes com prejuízo das aulas...) e havia audiências lá no Tribunal da Lousã. Agora das idas à Penitenciária e à "Pensão do João Manso" é que não tinha a menor ideia. Tenho que dar graças ao S.Pedro por mais esta chuvinha, pois sempre fiquei a conhecer, com muito agrado, mais uma das tuas historietas (ou estorietas, já não sei muito bem como se escreve...).
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