sábado, 2 de janeiro de 2010

Um sabor agri-doce...



Encostei a escada de mão à árvore da vida e preparava-me para colher um dos seus saborosos frutos, quando, de repente, um dos degraus se partiu e despenquei por ali abaixo.

Explico melhor: era a manhã do dia 24 de Novembro e ainda trazia na boca o perfume dos doces do aniversário da Bikas ocorrido na véspera. Tomei a bica habitual, passei os olhos pelos jornais, espreguicei-me ao sol e voltei a casa para o almoço, onde um fumegante prato de bacalhau com batatas, bróculos e o respectivo ovo cozido, já esperava por mim.

Subitamente comecei a tremer dos pé à cabeça e o apetitoso almoço transformou-se em algo de repelente que me causava náuseas. Marchei para a cama e em breve atingia os 39,7 º de febre. Seguir-se-iam cinco dias sem comer e com febres altas que só cediam brevemente a poder de medicamentos.

Domingo, dia 30, fui ao Hospital de Santa Maria para ser observado. Passei ali o dia, das 10h às 20h, em análises e testes, sentado a maior parte do tempo em incómodas cadeiras, incompatíveis com o meu estado de fraqueza e mal estar. Apesar do sofrimento, deu para apreciar a dedicação e o trabalho incansável da Dr. Anabela (que se tinha oferecido voluntariamente para aquele dia) e da enfermeira Maria João. Ainda há gente assim...

Às 20 h desse dia fui transferido para o Hospital Pulido Valente com suspeitas de gripe A, e ao entrar naquela enfermaria vazia, completamente nova e escrupulosamente limpa e asséptica, com o cansaço e sofrimento que transportava comigo, senti-me como o George Clooney a subir a grande escadaria ao encontro do Senhor de Branco. Só que ia de mão vazias, sem nada para a troca...

Felizmente, quem veio ao meu encontro foi o Anjo da Guarda, uma jovem enfermeira, bonita, elegante e 100% profissional, que suponho chamar-se Marta. Ligou-me ao oxigénio e ao soro, fez-me engolir uma cápsula de Tamiflu, e deixou-me a descansar, vigiado de longe pelos olhos tristes da Anástácia, uma ajudante de enfermagem negra, de uma solicitude extrema.

Ali passei a noite meio agitado, ouvindo borbulhar da água nos balões do oxigénio. A principio aquele barulho fazia-me lembrar o de uma cafeteira quando está ao lume com água a ferver, mas à medida que o tempo foi passando vieram-me à memória outros tempos mais felizes, e o marulhar da água naqueles balões fez-me recordar as noites passadas no Espinho, na Fábrica do Caratão do avô Zé-Zé, ouvindo a água da levada caindo para a roda do azenha situada entre a casa e a cozinha. Assim adormeci.

No dia seguinte fui ouvindo chamar, sem nunca a ver, pela D. Isilda, nome que me trazia ressonâncias mais familiares. Mais tarde seria esta D.Isilda que me ajudaria a levantar, ir à casa de banho e sentar na cadeira de rodas. Era uma senhora já de uma certa idade, cabo-verdiana, ajudante de enfermagem e muito simpática. Troquei com ela algumas palavras acerca do nome e fiquei a saber que não sendo uma Isilda Izidora como a minha mana, se sentia confortável se lhe chamassem Isilda Joana.

A análise à gripe A tinha dado negativo, mas confirmava-se uma pneumonia bi-lateral, pelo que fui transferido para uma enfermaria no piso 4, sala 1, cama 2. A cama 1 estava ocupada por um Baptista, o sr. Antero Baptista, e o enfermeiro que para lá me levou, muito simpático e prestável, também era Baptista, salvo erro Miguel Baptista. Estava com a minha gente!

O Antero foi um bom-malandro de Lisboa e é hoje um bom chefe de família, cuja mulher o acompanhava diariamente no hospital. Doente crónico do foro pulmonar, já ali tinha estado internado no ano anterior em estado de coma. Mas nem por isso se deixa abater; é um doente sempre com o moral em alta, muito solidário com os companheiros de sala, sempre com palavras de estímulo para todos. Quando lhe chegavam os ataques de tosse parecia o motor de arranque de um automóvel cujo motor não pega, mas depois tudo ficava bem. Saiu primeiro do que eu e deixou no meu armário garrafão e meio de água, para ir enchendo as garrafas de quem precisasse.

Na cama 3 estava o Fernando, mais velho do que eu um ano, mas muito mais mal tratado pela vida. È um agricultor da zona de Mafra, Sobral da Abelheira, muito terno e
saudoso da sua casa. A mulher estava internada em Santa Maria e ele para ali estava muito só, com visitas esporádicas de uma irmã. O Antero passava a vida a brincar com ele e a animá-lo.

A cama 4 vagou nesse mesmo dia e veio depois a ser ocupada por um «cromo» que trazia a reboque um «combóio» de medicamentos e entendia que devia fazer sobre os mesmos uma longa descrição a cada médico ou enfermeiro que chegava à beira dele, o que levava o Antero a comentar: “lá vai começar mais uma palestra”. Para convencer o homem que dali em diante só tomava os medicamentos do hospital, foi um sarilho.

O senhor tinha sido durante 30 ou 40 anos vendedor da Mundinter Hospitalar e estava habituado a entrar nos hospitais pela porta grande, tratando médicos e administradores com toda a familiaridade. Só que agora tinha entrado pela porta pequena: a do paciente...

Outras características eram o cuidado que punha no vestir e o uso do telemóvel . Em relação à vestimenta tinha o cuidado de telefonar para casa e dizer a cor das meias e camisolas que queria que lhe trouxessem, de modo a que as cores estivessem em harmonia. Por sua vez, o telemóvel tinha o sinal de chamada altíssimo e estava sempre ligado. De manhã cedo, estávamos ainda todos a descansar, lá vinha a serrazina do telemóvel acordar toda a gente. “Lá está a central telefónica!”, comentava o meu vizinho do lado.

Na cama 5 estava o Jorge Nuno (que não era o Pinto da Costa) rapaz de 47 anos e muitas namoradas, ao que parecia. Estava com soro, um dreno nas costas que se fartava de deixar sair líquido dos pulmões e ainda ligada a uma maquineta que ia injectando de modo regular e lento um qualquer medicamento. Apesar do incómodo que tudo aquilo lhe devia certamente provocar, suportava estoicamente as dores e os tratamentos. Nunca se ouviu um ai ou um queixume daquele homem e estava sempre com boa disposição para conversar connosco.

Na cama 6 estava inicialmente o Victor Costa, antigo operador de câmara da RTP e também um antigo bom-malandro de Lisboa. Era conhecido do Antero de há longos anos e como as camas ficavam frente a frente, as histórias das aventuras passadas em conjunto ou com amigos comuns, iam-se sucedendo, mantendo-nos a todos com a boa disposição possível dentro da contingência do nosso estado de saúde.

Apesar do Victor estar ali internado por causa de problemas dos pulmões e outras complicações inerentes a esses mesmos problemas, não se coibia de, volta e meia, dar a uma escapada até à rua para fumar o proibido cigarrinho. Aonde conduz o vício!...

O Victor saiu entretanto e a sua cama foi ocupada por um doente que ali permaneceu por pouco tempo e depois por um outro com quem já não tive grande contacto. Por isso não há que contar.

Saí com menos 10 kg. do hospital, embora a alimentação que nos era servida fosse em abundância e servida regularmente a horas. Nem sempre estaria de acordo com o meu paladar, uma ou outra vez vinha mais fria, mas não foi por aí que perdi peso. Foi mais por causa dos 6 dias em que estive em casa com febre, sem conseguir comer nada e, talvez, devido aos tratamentos.

Saí também com uma dívida de gratidão para com o pessoal de enfermagem e auxiliares que foram sempre de um carinho e uma prontidão para com todos nós inexcedíveis. Tive menos contacto com os médicos, mas também em relação a eles não tenho nada a apontar. Até hoje não tenho razões de queixa dos Hospitais públicos; a saúde em Portugal pode não ser uma maravilha, mas também não me parece tão má como alguns a querem pintar.

1 comentário:

Maluis disse...

Devias mandar este post para o hospital, para que os visados tomassem conhecimento.
Beijokas e folgo que tenhas regressado