sábado, 24 de outubro de 2009

Algum Barthou se calou ?


Estranhamente, toda a gente deixou de vir aqui escrever. E quantos são os que lêem o pouco que por aqui vai aparecendo ? Dois ou três? Mais?

Não sei, porque os comentários também não aparecem. Para compensar, resolvi colocar hoje aqui um escrito (que é mais um transcrito...) um pouco longo, que tem qualquer coisa a ver, ou não, com as recentes eleições e a consequente formação do Governo. Leiam pois esta crónica de Eça de Queiroz, escrita nos finais do sec. XIX, e vejam se há semelhanças com aquilo que se passa aqui em Portugal neste início do sec. XXI
.

“Houve em França subitamente uma queda, ou antes um desconjuntamento de ministério.... “
E mais adiante:

“Imediatamente, porém, se manufacturou outro Governo. E a única feição desta crise, digna de ficar nas crónicas, foi o ter aparecido de repente, e por motivos dela, um homem de Plutarco.

Este homem é o Sr. Barthou.

É necessário reter este nome – Barthou – porque ele representa um justo. A Bíblia diria um «vaso de eleição»; mas esta imagem é arriscada e dá lugar a equívocos lamentáveis, quando se trata de homens e de coisas parlamentares.

Quem é o Sr. Barthou ?

Um político, e portanto um ambicioso. Além disso um inteligente e um ardente.

E que fez o Sr. Barthou ?

O Sr. Bartou realizou um feito sem precedentes na história constitucional: - convidado, nesta nova organização de ministério, para secretário de Estado das colónias, recusou.

E recusou por um motivo que o eleva justamente a essas alturas morais em que Plutarco se começa a entusiasmar. O Sr. Barthou recusou porque (segundo disse) «não estava habilitado, nem pelos seus estudos anteriores, nem pela experiência, a tomar conta dessas funções». Conhecem alguma resolução mais heróica ? Eu não conheço. Um político de profissão, um ambicioso que se nega a entrar num ministério por não se considerar competente, nem teórica, nem experimentalmente, para gerir um certo ramo da administração – é verdadeiramente prodigioso ! E nós todos os que nascemos sob o regime das cartas constitucionais, não podíamos realmente supor que existisse algures, nesta Europa política e parlamentar, um bacharel que sinceramente se julgasse inapto para governar, do fundo do seu gabinete, fumando a cigarrette do poder, as colónias do seu País !

No antigo regime de direito divino, frequentemente se viu ser chamado um cabeleireiro para salvar as finanças do reino. Mas, nesses tempos deliciosos, tudo dependia do bel-prazer de El-Rei. Às vezes o cabeleireiro, mostrando os seus pentes, confessava aterrado a sua incompetência. El-Rei, porém, mandava – e o cabeleireiro, com as mãos ainda gordurentas das pomadas, tomava conta do tesouro real. Quando Felipe II de Espanha deu ao duque de Medina-Sidónia o comando da Grande Armada, que partia a conquistar a Inglaterra – o pobre duque escreveu ao seu rei e senhor uma carta desolada, em que lhe dizia que estava velho e cheio de achaques, que enjoava horrivelmente no mar, e que não sabia comandar uma frota !... Felipe II franziu II franziu o sobrolho e ordenou ao duque que embarcasse. O desgraçado lá embarcou, já enjoado – e todos sabem a boa conta que ele deu da Grande Armada.

Para evitar esta deplorável confusão das profissões – se fez a revolução de 89. E dela surgiu então essa classe de políticos, possuidores de aptidões universais e de ciência universal. Todo aquele que, por gosto ou necessidade, se incorporava nessa classe, parecia receber logo do Espírito Santo o dom de tudo conhecer e de tudo poder. O médico largava as sua lancetas e ia, absolutamente seguro da própria capacidade, confeccionar códigos, O folhetinista arrojava a pena, empolgava a espada, e lá partia, com uma soberba confiança, para o ministério da guerra a reorganizar os exército. Nenhum jamais hesitara. E tal que duvidaria, por causa da sua inexperiência, aceitar a administração de uma horta de couves – estava pronto, soberbamente pronto, a dirigir um ministério da agricultura e comércio.

Esta confiança dos políticos em si próprios terminava por se comunicar ao público. E todos nós, desde que Fulano era eleito deputado, ficávamos certos de que, tocado por uma luz divina, da língua de fogo, como os apóstolos, ele poderia, senão falar todos os idiomas, pelo menos dirigir, sob todas as formas, os grandes serviços públicos da sua terra, e indiferentemente, segundo as circunstâncias, salvar as finanças ou comandar as frotas.

A estranha confissão do Sr. Barthou vem desmanchar esta confortável confiança. O quê ! Há pois políticos que não conhecem, nem por estudos anteriores, nem por experiência adquirida, os negócios coloniais ? Diabo ! como tem sido então o Mundo, até agora, governado ? Será possível que tenhamos tido por ministros e governantes outros Barthous, que , ao contrário deste, cuidadosamente esconderam a sua incompetência ?

Não sei. Mas certamente a declaração do Sr. Barthou, singularmente honrosa para ele, é altamente nociva para a sua classe. Cria uma larga suspeita entre nós outros, os governados.
Se há um político a quem o Espírito Santo não concedeu o dom do universal saber – é bem possível que outros muitos tenham encontrado da parte do Espírito Santo a mesma resistência em lhes outorgar o dom divino. E já não podemos ver um bacharel subindo de cabeça alta e luneta faiscante os clássicos degraus do poder, sem murmurar dentro de nós mesmo, olhando de revés o galhardo moço na sua ascensão: - «Diabo ! será este maganão um Barthou – que se calou ?» “.

Será que os meus dois ou três leitores foram capazes de ler tudo até ao fim ? Se assim aconteceu já me dou por feliz: consegui pô-los a ler o imortal Eça e dei, por isso, alguma utilidade ao tempo que gastei com este «post», perdão, escrito.

3 comentários:

Margarida disse...

Eu consegui, consegui ler tudo e é verdade... Será que estamos rodeados de governantes tocados por algo divino ou não passam de um bando de gente pretenciosa e tão pouco capaz?
Oh, se pelo menos existissem mais Barthous no mundo ou, pelo menos, em Portugal....

Zi disse...

Como sempre cá estou eu no cumprimento da minha missão,o que faço com muito gosto e ler Eça é-me também muito prazeiroso.
Quanto aos possíveis Barthou deste cantinho, creio que não haverá por aí muitos, não... Mas confesso também não sei se seria muito bom que houvesse assim tantos - mesmo que zigzagueando quem levaria esta barcaça a um qualquer porto???
Continua, continua, Lousanense, não esmoreças.

Marta disse...

Eu li tudo!Eça é que é essa!!