
Com a entrada de Julho chegou o tempo de férias e a Ch´Ma decidiu tirar uma semana das ditas e partir para a Grécia. Deixou-me com o encargo de entregar o computador portátil, que necessita de uma pequena reparação, a alguém que o viria buscar para ser enviada para a assistência técnica.
Sexta-feira de manhã tocam-me à porta e aparece-me um senhor com uma estranha farda em tons de amarelo e vermelho, artilhado com uma engenhosa caixa de cartão e um saco de plástico impresso com as berrantes cores da fardeta, para levar o portátil: o homem da DHL.
Como os pensamentos, tal como as conversas, são como as cerejas que iam dando cabo dos rins ao outro, fiquei para ali a matutar nas novas profissões que vão aparecendo, como esta de virem a casa de um cidadão recolher uma coisa que vai a Inglaterra e volta, devidamente reparada, em coisa de uma semana. Novas áreas de negócio, como agora se diz...
Mas, pensando bem, serão assim tão novas? Veio-me à ideia um indivíduo que, valha a verdade, não conheci muito bem, mas cuja figura marcou os Batistinhas mais velhos, especialmente aqueles que viajavam diariamente no comboio para Coimbra. Chamava-se ele Zulmiro de Figueiredo e era irmão da escritora Carmen de Figueiredo, de quem ainda li alguns artigos no jornal República.
O Zulmiro morava em Miranda do Corvo, onde explorava o café Duas Nações, em cuja tabuleta figurava a bandeira de Portugal e a do Brasil. A certa altura, talvez porque a receita do café não desse para o tabaco, tirou o passe da CP, comprou um boné de pala, mandou colocar no mesmo uma placa metálica com a palavra Recoveiro e começou a viajar diariamente entre Miranda e Coimbra. Fazia pequenos recados às pessoas que não se podiam deslocar à cidade, transportava pequenas encomendas de e para Coimbra, marcava consultas médicas, etc. Tudo a troco de algum dinheiro, está bem de ver.
Como uma pessoa só morre quando já ninguém se lembra dela, hoje apeteceu-me trazer aqui o nosso Zulmiro.
Mas não só!... Como a «carola» ainda vai funcionando lembrei-me também do senhor Perfeito. O senhor Perfeito atravessava a serra dos lados da Castanheira para a Lousã, conduzindo um carrinho de amolador e atroando os ares com o som da sua «gaitinha de capador» . No carrinho vinham todos ao acessórios necessários à sua arte: consertar chapéus de chuva , amolar tesouras, facas e navalhas, consertar loiça rachada (punham-se gatos nela) e, se calhar, capar algum animal, função que nunca o vi executar nem em animais nem em pessoas...
Da caixinha que havia por cima da grande roda, saíam alicates pequeninos, limas do mesmo tamanho, um martelinho, etc., coisas que faziam as minhas delícias de menino. Do senhor Perfeito, saía a perícia para reparar toda a tralha que lhe punham nas mãos e histórias de outras gente e outros lugares. Por ele ficávamos a saber que o abade de Campêlo tinha comprado uma espingarda nova e que vendia a velha por bom preço, que na Bolo havia um indivíduo que tinha uma perdigueira quase a parir e que se os cachorros saíssem à mãe teriam um nariz afinadíssimo, que a palha do outro lado da serra estava muito cara, etc. etc. Se a conversa metia o sexo feminino era um nunca mais acabar de histórias proibidas, que só acabavam quando o senhor Prefeito retirava do colete o relógio de bolso e decidia que eram horas de continuar o trabalho ou de ir até ao café Avis pôr o estômago a trabalhar.
A DHL não inventou nada!
Sexta-feira de manhã tocam-me à porta e aparece-me um senhor com uma estranha farda em tons de amarelo e vermelho, artilhado com uma engenhosa caixa de cartão e um saco de plástico impresso com as berrantes cores da fardeta, para levar o portátil: o homem da DHL.
Como os pensamentos, tal como as conversas, são como as cerejas que iam dando cabo dos rins ao outro, fiquei para ali a matutar nas novas profissões que vão aparecendo, como esta de virem a casa de um cidadão recolher uma coisa que vai a Inglaterra e volta, devidamente reparada, em coisa de uma semana. Novas áreas de negócio, como agora se diz...
Mas, pensando bem, serão assim tão novas? Veio-me à ideia um indivíduo que, valha a verdade, não conheci muito bem, mas cuja figura marcou os Batistinhas mais velhos, especialmente aqueles que viajavam diariamente no comboio para Coimbra. Chamava-se ele Zulmiro de Figueiredo e era irmão da escritora Carmen de Figueiredo, de quem ainda li alguns artigos no jornal República.
O Zulmiro morava em Miranda do Corvo, onde explorava o café Duas Nações, em cuja tabuleta figurava a bandeira de Portugal e a do Brasil. A certa altura, talvez porque a receita do café não desse para o tabaco, tirou o passe da CP, comprou um boné de pala, mandou colocar no mesmo uma placa metálica com a palavra Recoveiro e começou a viajar diariamente entre Miranda e Coimbra. Fazia pequenos recados às pessoas que não se podiam deslocar à cidade, transportava pequenas encomendas de e para Coimbra, marcava consultas médicas, etc. Tudo a troco de algum dinheiro, está bem de ver.
Como uma pessoa só morre quando já ninguém se lembra dela, hoje apeteceu-me trazer aqui o nosso Zulmiro.
Mas não só!... Como a «carola» ainda vai funcionando lembrei-me também do senhor Perfeito. O senhor Perfeito atravessava a serra dos lados da Castanheira para a Lousã, conduzindo um carrinho de amolador e atroando os ares com o som da sua «gaitinha de capador» . No carrinho vinham todos ao acessórios necessários à sua arte: consertar chapéus de chuva , amolar tesouras, facas e navalhas, consertar loiça rachada (punham-se gatos nela) e, se calhar, capar algum animal, função que nunca o vi executar nem em animais nem em pessoas...
Da caixinha que havia por cima da grande roda, saíam alicates pequeninos, limas do mesmo tamanho, um martelinho, etc., coisas que faziam as minhas delícias de menino. Do senhor Perfeito, saía a perícia para reparar toda a tralha que lhe punham nas mãos e histórias de outras gente e outros lugares. Por ele ficávamos a saber que o abade de Campêlo tinha comprado uma espingarda nova e que vendia a velha por bom preço, que na Bolo havia um indivíduo que tinha uma perdigueira quase a parir e que se os cachorros saíssem à mãe teriam um nariz afinadíssimo, que a palha do outro lado da serra estava muito cara, etc. etc. Se a conversa metia o sexo feminino era um nunca mais acabar de histórias proibidas, que só acabavam quando o senhor Prefeito retirava do colete o relógio de bolso e decidia que eram horas de continuar o trabalho ou de ir até ao café Avis pôr o estômago a trabalhar.
A DHL não inventou nada!
Nota - A foto acima não é, infelizmente, do senhor Perfeito mas sim de outro digno representante da arte, que tem um carrinho muito parecido. Foi retirada do blog spyvia.kouaa.blog.com que traz uma crónica sobre o senhor representado.
2 comentários:
E como cada macaco no seu galho, como é uso dizer-se, cá estou eu na minha função de leitora dos belos escritos do "Mano Velho"! É pena que o "Novo" não vença a malvada da inércia e nos brinde também com um pouco da sua prosa, ou verso, tanto faz...
Muito pouco, falta já, para que volte a estas minhas lides de escritora.
Agora que estou quase de férias da minha vida académica prometo dedicar a minha energia neuronal a preencher algumas cadeiras desta sala de estar.
Beijokas e até breve
Maria Lulas
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