quinta-feira, 23 de abril de 2009

Subsídios para a hitória dos Batistinhas

As minhas recordações dos avós paternos são muito ténues e fragmentadas. Recordo uma ou outra ocasião e custa-me reconstruir os rostos na minha memória. Das vozes não me lembro mesmo, e tenho pena, porque a recordação dos sons tem para mim grande significado.
Era muito novo quando partiram; teria talvez 5 anos quando faleceu avózinha Etelvina e uns 7 quando o avôzinho Abel nos deixou.

A imagem que conservo do avô Abel é a de um homem austero, mas ainda cheio de vigor, por detrás do balcão da loja. Era muito respeitado por toda a gente e dirigia o seu negócio com muita seriedade e com total confiança por parte dos seu clientes. A ajudá-lo tinha o meu pai que com a sua simpatia, alegria e frontalidade, ia contribuindo para solidificar cada vez mais o prestigio da casa.

Julgo que com a morte da avó, companheira infatigável da sua vida, se teria ido muito abaixo. A partir dessa altura escolheu para seu companheiro de quarto o meu irmão Vasco, a quem dedicava uma grande amizade e carinho. Na mesa da sua casa da Travessa havia sempre um lugar posto na mesa para o meu irmão.

Assim, o Vasco, que por sua vez tinha uma grande amizade e cumplicidade com o avô, passou a dormir numa pequena cama ao lado até ao dia da morte dele. Julgo que foi o Vasco que deu primeiro com a morte do avô, ocorrida durante a noite, quando acordou pela manhã, mas não tenha a certeza.

A admiração e amizade do Vasco para com o avô era tanta, que lhe imitava até os gestos. Contava a minha mãe que uma ocasião em que estávamos de férias na Figueira da Foz, o Vasco desapareceu de casa. Teria uns 4 ou 5 anos e, como é de calcular, gerou-se uma grande confusão e ansiedade com o desaparecimento do menino.

Correram-se as ruas vizinhas à sua procura sem resultado; a certa altura, alguém se lembrou de ir procurá-lo ao mercado, porque era um lugar a que ele ia por vezes acompanhar a minha mãe ou a criada. Foi então que deram com o Vasco a passear muito solene, com as mãos atrás das costas, por entre as bancas do peixe. “Vim dar uma passeio como o avôzinho” foi a explicação

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