domingo, 14 de dezembro de 2008

Memórias de há 60 anos

A revista ARGANILIA no seu n.º 22, dedicado à Lousã, traz alguns excertos de um livro autobiográfico do Dr. Jorge Babo, que relatam vivências da «nossa» vila nos anos 30 e 40 do século passado. O autor chegou ali no Verão de 1935, com apenas 10 anos de idade, para viver com uma madrinha. Por lá passou uma grande parte da sua juventude e ali viria a casar alguns anos mais tarde. No seu livro descreve como se deu a sua adesão ao Partido Comunista e dá igualmente alguns apontamentos sobre a sua militância naquele partido. Como ali são referidos alguns membros da nossa família, transcrevo para aqui algumas passagens do respectivo livro, respigadas da revista Arganilia:

..... Mas em Outubro de 1945, quando no regresso de uma viagem a Lisboa, tinha ido visitar o director do Colégio Portugal, estabelecimento de ensino de Coimbra que frequentara durante escassos quatro meses e no decorrer do ano escolar anterior, estava-lhe reservada uma grande surpresa.
O senhor Baeta de Campos, originário do Espinho, Miranda do Corvo, mas com família na Lousã, propunha-lhe um encontro com um Fulano Assim Assim, o que veio a acontecer depois de um telefonema misterioso.

“Era um homem dos seus 40 anos, entroncado, de estatura média, alourado, com ar de capataz de oficina. Voz grossa e riso fácil.
O Director, minutos depois deu a deixa:

- Vocês querem conversar. Estejam à vontade. Podem ir para essa sala ali, ninguém vos incomoda e, se precisarem de alguma coisa, digam...

- Obrigadinho, amigo Baeta, obrigadinho. A gente aproveita.

E o nosso amigo, sempre com a mesma exuberância e familiaridade, pegou-me no braço e avançámos.
Fechada a porta e acomodados em duas cadeiras, junto à secretária. O meu interlocutor mudou instantaneamente de expressão e modos. Metendo a mão ao bolso, estendeu-me a outra metade da Credencial entregue pelo Luís Carlos Folque.

- Com certeza que isto te diz alguma coisa, não é assim?

Como estava a léguas do assunto e esperava tudo menos um contacto estabelecido pelo Director do Colégio Portugal, conhecido pelas suas opiniões e acções antisalazaristas, que lhe haviam valido a prisão, mas aparentemente a anos-luz do Partido Comunista, fiquei tão atrapalhado que até as mãos me tremiam na busca do papel a apresentar.
Reunidas as duas metades, o Fulano rasgou-as meticulosamente, fez uma bolinha com os restos e foi deitá-la no cesto dos papéis.
A seguir deu-me a primeira lição:

- Já sabes, portanto, que represento o Partido. O meu nome verdadeiro não interessa nada. Passas a chamar-me, daqui para a frente, Alberto. Sou o Alberto. Tratamo-nos por tu quando estivermos a sós em sítio seguro (sabes que há “ouvidos” por todo o lado, não sabes? Pensa sempre nisso...) ou em reuniões com camaradas que mereçam confiança. O nome de que o Baeta se serviu para combinar o nosso encontro é um nome fictício. Digo isto para te tirar dúvidas. Olha, Babo: quanto menos souberes, em matéria de identificação de militantes, melhor para ti e melhor para o Partido. Temos de ser realistas. Estás sempre sujeito a seres preso e, quando tal sucede temos uma grande responsabilidade.”
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- “Tu agora vais sossegadinho para a Lousã e esperas que alguém te procure. Antes disso nada feito. Eu trato de tudo, na fase de montagem. Depois, a coordenação passará para um Funcionário do Partido. Está tudo entendido?”
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“As consequências do encontro em Coimbra, com o Alberto, não tardaram.
Um dia, recebi recado para ir falar com o Armando Baptista a casa dele.
Julgando tratar-se de qualquer assunto relacionado com as actividades do MUD, na altura reduzido à sua expressão mais simples, lá fui.
O Armando Baptista era um dos três filhos de um velho republicano, muito estimado e conhecido na Lousã, o senhor Abel Baptista. Tomava conta de um grande estabelecimento comercial, fundado pelo pai e dispunha daquilo que se poderia chamar uma fortuna razoável, na dimensão própria de uma terra provinciana.
Era um homem dos 40 e tantos anos, muito corpulento, exuberante de gestos e palavras, conhecido pela sua coragem e frontalidade, o que se chama “um bom chefe de família”, de vida pacata , arredado de noitadas e folias, mas capaz de alinhar, a cem por cento, nas festas em que tinha de colaborar.
O velho Abel Baptista arredara-se, há muito, das lides políticas, mas a família mantinha a tradição.
Quando entrei na sala de estar do Armando Baptista e o vi em alegre e familiar cavaqueira com o Alberto, caí das nuvens, como teria acontecido a qualquer lousanense a quem dissessem que um dos esteios do comércio da Vila, rico e próspero, com todas as características do burguês, tal como no-lo pintam os Manuais, alinhava com o PC.
Mas não havia dúvidas.

- Ó Babo: ficaste azabumbado com esta, hem?

E o Alberto ia dando, por entre gargalhadas, umas palmadas nas costas do dono da casa, enquanto este explicava:

- O Alberto contou-me a vossa conversa e eu já me dispus a colaborar. Estamos no mesmo barco. A minha vida, como você sabe, não me dá muito tempo, mas você, Babo, rapaz novo e sem grandes encargos por enquanto pode fazer muito. Já sabe que conta comigo para tudo o que for necessário.

- É assim mesmo... É assim mesmo... corroborou o Alberto, entrando no sério – Para já, vocês vão ponderar muito bem, com muito cuidado, quem serão os outros membros do Comité Local. Cuidadinho... Muito cuidadinho... Só tipos de extrema confiança. Mais dois ou três... Que dizem? Mais dois ou três? Para já, não é nada mau... Quando a coisa estiver assente, eu venho cá fazer o primeiro contacto e, a seguir, entrego-vos aos cuidados de um Funcionário do Partido. Eu sou um mero intermediário. A seguir, até logo e desapareço da circulação...”

1 comentário:

trout disse...

andei por aqui ,descobri o blogue por acaso e gostei de ler as novidades ,beijos e abraços a todos .Rui