Acho que esta prosa faz sentido aqui, por isso aí vai.
No dia 1 do corrente mês de Janeiro a maioria dos elementos do clã «Batistinhas» viu-se livre de um constrangimento e passou a viver mais feliz: passou a respirar melhor. De facto, salvo algumas excepções, “Os Batistinhas” são uma comunidade de não fumadores, mas, valha a verdade, também não são fundamentalistas.
Pela parte que me toca, devo confessar, que o tabaco nunca foi para mim um vício, mas ainda chegou a ser um hábito durante algum (pouco) tempo. Já o mesmo não posso dizer do fumo passivo. Durante toda a minha vida profissional tive de conviver com as autênticas chaminés que eram os meus queridos colegas, hoje felizmente arredados do vício e do hábito.
Não gostando de inalar o fumo do tabaco alheio, não consigo contudo aceitar a infeliz ideia do «cromo» que resolveu emporcalhar a única coisa bonita que o tabaco tinha, a embalagem, com aquelas etiquetas e frases horrorosas.
Também não gostei nada da especulação feita à volta do director da ASAE, pelo mesmo ter sido apanhado a fumar uma cigarrilha, no Casino Estoril, na noite de fim de ano. Quando os proprietários dos estabelecimentos comerciais encerraram as portas a 31 de Dezembro, sabiam que quando as abrissem no dia 1 de Janeiro já não podiam aceitar o fumo no seu interior. Ora o senhor inspector chefe ainda não tinham encerrado a loja; o seu dia 1 de Janeiro só começava depois do sono reparador. Será que nenhuma alminha compreendeu isso?
Mas voltemos aos Batistinhas. Não sei se o meu avôsinho, o austero Abel Baptista, era dado a tabacos. Não me lembro de o ver a fumar. Já o pai Baptista (o meu, Armando de seu nome) fumava o seu cigarrinho. Uma ocasião, levou-me e ao Vasco à caça com ele, para os lados de Fiscal. A determinada altura fez uma pausa para enrolar o seu cigarrito de tabaco de onça Superior (embalagem tipo pijama, às riscas longitudinais beige e salmão) e papel de fumar Conquistador, quando de uma moita saltou um coelho. Tiro falhado, já se vê, que o animal também não podia com o fumo. Desânimo para nós e para o Tôjo e o Manjerico, os fiéis cães que nos acompanhavam.
Já que o tema é o ar puro e livre, aí vai um poema dos tristes tempos da resistência ao fradalhão de Santa Comba:
AR LIVRE
Ar livre, que não respiro!
Ou são pela asfixia?
Miséria de cobardia
Que não arromba a janela
Da sala onde a fantasia
Estiola e fica amarela!
Ar livre, digo-vos eu!
Ou estamos nalgum museu
De manequins de cartão?
Abaixo! E ninguém se importe!
Antes o caos que a morte...
De par em par, pois então?!
Ar livre! Correntes de ar
Por toda a casa empestada!
(Vendavais na terra inteira,
A própria dor arejada,
- E nós nesta borralheira
De estufa calafetada!)
Ar livre! Que ninguém canta
Com a corda na garganta,
Tolhido da inspiração!
Ar livre, como se tem
Fora do ventre da mãe
Desligado do cordão!
Ar livre, sem restrições!
Ou há pulmões
Ou não há!
Fechem as outras riquezas,
Mas tenham fartas as mesas
Do ar que a vida nos dá!
Miguel Torga
domingo, 6 de janeiro de 2008
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1 comentário:
Estou efectivamente de acordo no que diz respeito á pureza do ar. Mas num país,supostamente, democrático e com liberdade de expressão, onde ficam os direitos dos fumadores!?
Terão mesmo de se sujeitar á ditadura do cigarro á chuva e ao frio?
E não será o estado castgador o maior beneficiário na venda do tabaco? eas multas de quem prevarica são em beneficio de quem?
Reamente o ar é mais limpo e tudo chira menos mal,mas esta pureza de ideias não sei se não estará consporcada á nascença.
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